sexta-feira, 30 de novembro de 2007

-Ele não te faz feliz, você devia deixá-lo.
Juliana estava sentada ao meu lado depois de muito tempo e estava entretida com a caixinha de lápis de cor que eu havia dado para ela. Olhei para ela em silencio, eu sabia do que ela estava falando. Ela usou aquelas palavras com tanta naturalidade como se as tivesse tirado de dentro de mim.
Esperei que ela dissesse mais alguma coisa ou me desse algum conselho, mas tudo o que fez foi empregar as suas mãozinhas infantis na importante tarefa de continuar desenhando um unicórnio.
Decidi dar uma volta, pois era a única coisa que eu podia fazer. Eu me sentia triste. De fato, o que eu sentia por ele tinha acabado. Eu havia perdido o interesse.
Percebi que não fomos feitos um para o outro e eu sentia como se eu estivesse me divorciando de um casamento que não deu certo.
Meu peito pesava, era a sensação deprimente do fracasso. Fui andando pelos corredores da faculdade quando ouvi a voz de alguém muito querido. Parei para escutar, e aquilo me fez recordar os bons momentos que tivemos juntos. Eu senti lágrimas nos olhos, com certeza eu o havia amado. Mas eu sabia que ele não era a coisa certa para mim.
Com um nó na garganta, eu sabia o que tinha que fazer. Estava pronta para terminar tudo.
Desci as escadas apressadamente. Abri a porta da sala, e esperei até receber a atenção da mocinha de crachá:
-Pois não?
-O que eu tenho que fazer para trocar de curso?

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

-Você precisa se livrar dele.
Com a ponta dos dedinhos Juliana levantava meu cobertor e encarava meus pés, chocada com os furos em minhas meias.
-Como você sabe que foi um rato?
Eu fazia a mesma pergunta pela milésima vez.
-Se é ou não é um rato, não sei, mas sei com certeza que não estamos sozinhas.
Virei para o lado para continuar dormindo. Meu corpo já fazia parte do colchão há dois dias.As janelas do quarto estavam fechadas há muito tempo, e juliana andava na ponta dos pés para não tropeçar nas nossas coisas espalhadas pelo chão.
-Este quarto é tão bagunçado quanto a sua vida!
Ela tinha nas mãos uma vassourinha e tentava colocar as coisas em ordem, quando começou a perceber pela falta das coisas e entrou em pânico.
Não sei por quanto tempo eu dormi, mas sei que um dia se passou. E agora Juliana estava sentada ao meu lado com uma aparência terrível. Das minhas meias roídas só restavam fiapos e em meu dedo agora havia um corte. Eu me sentia tão doente que não me importava mais com a dor.
Todos os dias algo em meu quarto desaparecia como se tivesse sido perdido ou roubado, e Juliana temia pela fragilidade da sua existência e não queria ser a próxima a desaparecer.
Eu não conseguia encarar a escuridão por mais que eu tentasse, pois em meus sonhos os lugares eram todos iluminados. Enquanto a negação agia em mim como uma espécie de droga, a paranóia fazia Juliana ver coisas:
-Meu Deus! Agora nós perdemos a fechadura! Estamos presas! Mas eu pego ele antes que leve a janela.
Juliana se preocupava com o rato, mas eu simpatizava com ele. Não acho que ser ruim fosse sua intenção, ele havia me contaminado com as mais belas ilusões.

Eu me ocupava com as luzes coloridas que dançavam em minha mente, enquanto Juliana permanecia sentada num canto do quarto, e alucinada repetia para si mesma:
-Ele é a fonte de todo o mal.

sábado, 22 de setembro de 2007

Eu lembro que havia um copo e de que dele eu bebi. E lembro que dancei e dancei até a sola das minhas sandálias vermelhas gastarem, e então caí. Caí num gramado verde e macio e que cheirava a orvalho. O frio da madrugada se estendia pela minha pele como um casaco gelado. Eu fiquei deitada lá olhando as estrelas e pensando que talvez eu tivesse bebido muitas cervejas. Eu não sabia onde estava, não sabia quem eu era e tentava me encontrar quando achei Juliana. No lugar das estrelas agora havia um rostinho miúdo de menina, uma menina muito pequena. Ela me estendeu a mão para que eu a pegasse. E não sei com que força me levantou, mas agora eu estava de pé. Caminhamos em direção a um bosque. Nunca tinha percebido ele ali. Estranhei um mato entre tantos prédios e por um momento o estranho pensamento de que Juliana o tivesse criado me passou pela cabeça. Mas logo o pensamento se foi e eu queria outra bebida. Ela segurava a minha mão e caminhávamos entre as árvores. Ela me fazia perguntas estranhas: “Como você está na faculdade? E o trabalho? E a vida? O que você esta fazendo da sua vida? Você sabe o que é isso, não? Vida? Cada dia que passa é um dia de vida e é um dia de vida desperdiçado se você não o viver bem. Por que você não olha a sua volta?”

Eu tentei dizer pra ela que eu olhava tudo ao meu redor. Mas logo tudo escurece e meus olhos se fecham bem fechadinhos. Eles se viram para dentro de mim e me encaram profundamente. E assim eles ficam, pois a visão do mundo interior é muito mais interessante. Fico assim durante dias e não consigo me desligar.

Juliana faz noc noc na minha testa. E eu abro minha mente pro mundo, como quem acorda de um cochilo. E faço cara de criança que não quer levantar para ir para aula: “me deixa mais um pouco”.

Ela entende. Ela sabe que é difícil sair, e ver a luz e ver o mundo te chamando a ser e interpretar um papel. Meu corpo é a minha fantasia, e eu convenço todo mundo.

Eu sou um monstro! Qual será o tamanho da minha alma? Talvez em minha totalidade eu só meça um centímetro! Vê minha respiração? Lá se vai um pouco de mim. Você consegue me agarrar com suas mãos. Mas já acabou.

Eu olho para a mesa a minha frente. Eu vejo o sofá eu vejo as almofadas. E pergunto a mim mesma se estão mesmo ali. Acho que se eles estão aqui, eles existem e se existem, certamente de alguma maneira eles vivem. Eles me servem e penso em seus sentimentos e em como se sentem vivendo para me servir. Queria lhes aliviar o sofrimento. Mas o que posso fazer se é esse o seu propósito? Eles parecem tristes. E eu me sinto sozinha no meio deles.

Penso como sou feliz sendo pessoa, como deve ser ruim a vida de um sofá ou de uma escrivaninha...

-Então mexa-se!! - Disse minha pequena, me acordando do meu devaneio. - Caminhe e caminhe! Não importa para onde! Na vida tudo o que se tem de fazer é andar e andar! Siga a estrada! E cuide para não tropeçar no caminho! Terá dias de sol e dias de chuva! Mas você continuará , pois não tem nada melhor pra fazer!

Ela me deu um empurrão tão forte com a mãozinha pequena que achei que iria cair do salto.

Eu continuei andando pelo que parecia ser um trilho. O sol nascia, o dia ia clareando, quando no final do trajeto encontrei o pé da minha cama. Subi nela e me deixei cair entre os lençóis. A luz já entrava pela janela do meu quarto e o dia prometia ser quente.

Senti meu corpo relaxado e fechei os olhos. Não sei se eu adormeci, mas acho que não faz diferença.

Por mais que eu tente, eu nunca deixarei de existir.

sábado, 15 de setembro de 2007

Juliana estava sentada à mesa e com descaso eu preparava algo para o jantar.
Eu misturava todos os ingredientes e esperava que eles combinassem em algum tom pastel ou talvez em algum tom vivo como um laranja avermelhado, pois aí sim estaria no ponto. Ao menos era o que indicava no livro de receitas que Juliana me emprestou.

Depois de pronto, o prato cor de laranja mais parecia uma sopa ou alguma espécie de caldo, e eu desconfiava pelo gosto terrível que a qualquer momento alguma criatura saltasse dali.

Eu olhava para Juliana saboreando o prato e esperava dela alguma espécie de reprovação, mas ela olhou nos meus olhos e disse: “perfeito”.
-Perfeito? Mas ficou uma droga!

Ela continuava comendo e comecei a pensar que talvez o problema fosse comigo.
Talvez eu estivesse com algum problema de paladar ou algo parecido.

Fui até a cozinha conferir os ingredientes que eu havia utilizado. Juliana os havia comprado numa feirinha que acontece uma vez ao ano, sempre na primeira curva de algum lugar fantástico e imaginário. Sua verdadeira localização eu desconheço.

Reuni uma ao lado da outra as embalagens multi-coloridas, e como num instinto fui enfileirando-as e mudando a ordem até que curiosamente percebi que em cada uma delas havia uma sílaba. E agora em letras garrafais eu lia:
“Qual é a causa da sua indigestão?”

Juliana cochilava no sofá com satisfação e eu sentia meu estomago embrulhado.
Nunca senti algo tão perturbador. Só no que eu conseguia pensar era em meu estômago e na dor que eu sentia. Todo o resto havia sido esquecido e silenciado.

Eu andava de um lado para outro, até que comecei a sentir que algo estava acontecendo comigo. Senti que algo subia pela minha garganta, similar ao refluxo de que sofrem alguns bebês.

E para surpresa de todos, saltou da minha boca um bilhete.
-Acho que chegou uma carta para você.
Dizia Juliana se espreguiçando, quando eu mesma já havia me esquecido da existência dela.

Li com atenção. Nunca imaginei que eu tinha coisas tão duras e verdadeiras para dizer a mim mesma. E foi como se alguém tivesse me sacudido, me dado uns tapas e depois me abraçado.

Dobrei a carta e guardei com cuidado o que a parte que vive em mim havia escrito. E no final ela assinou:
“Com amor, A louca que governa a sua vida”.

sábado, 1 de setembro de 2007

-Você ganhou! Ganhou!
Juliana vinha correndo, e tinha nas mãos o que parecia ser um bilhete de loteria.
-Que diabos, me deixa ver o que eu ganhei!
No bilhete, abaixo dos números sorteados dizia: “ Uma vida completamente alucinante”.
-Você só pode estar brincando, quem é que precisa disso.
Tudo o que eu queria era paz e tranqüilidade. E uma rede, também não viria mal.
Quando Juliana some por alguns dias sempre aparece com todo o tipo de quinquilharias. Mas ela como sempre está disposta a me ajudar, e eu não poderia recusar o presente.
-Tá, onde eu vou para retirar o premio?
-Não precisa ir a lugar algum, basta permanecer ai onde está.

Me deixei cair na cama e esperei.
Eu sentia meu corpo todo anestesiado, mas em minha cabeça eu dançava.
Eu rodopiava. Sentia meus olhos pesados quando do nada apaguei.

Acordei olhando para meus pés que calçavam um tenizinho nº 28. Também notei que eu vestia meias de lã e polainas. Olhei para o lado e vi meu pai. Ele ainda tinha cabelos e me olhava com seus olhos azuis-eu-estou-aqui. Me dei conta de que eu estava sentada no banco do carona de um opala em 1989. Eu digeri o fato muito rapidamente. No rádio tocava a minha fita k7 do Dire Straits. Senti nas costas um chutinho. Como eu pude me esquecer, sem ela a cena não seria completa. No banco de trás estava sentada a minha irmã, babando e emitindo sons indecifráveis.
Eu decidi aproveitar o momento. Coloquei o braço pra fora, e senti o vento emaranhando meu cabelo rabo-de-cavalo.

Nós paramos. Eu saltei do carro e libertei minha irmã da cadeirinha. Eu a segurei desajeitadamente e ela emitiu um gemido indicando que eu a estava abraçando forte demais.

Meus olhos brilharam. E eu corria o mais rápido que podia pela grama, apesar da limitação imposta pelas pernas pequenas. O jardim cheirava a flores. Era a primavera antecipada do inicio de setembro.

Na porta, minha mãe esperava por nós, com os braços abertos e um sorriso no rosto.

Juliana tinha razão como sempre.
Nada jamais vai me impedir de viver a felicidade que está na memória.

domingo, 19 de agosto de 2007

Para Juliana era um dia importante. Eu a deixei incumbida de realizar uma tarefa no mundo real. Ela queria fazer algo que as pessoas normais fazem, que todo mundo faz, até mesmo as loucas, então resolvi dar uma chance.
Se ela quer mesmo saber como é a vida cotidiana vamos começar por algo aborrecedor.
-Hoje você vai ao banco para mim.
Ela ficou muito empolgada. Apareceu na minha casa duas horas antes do combinado, vestindo um terninho preto, as mangas eram muito compridas e escondiam até as pontas dos dedinhos. As calças e os sapatos como eram de se imaginar, também eram grandes demais. Fiquei com medo de perguntar de onde ela tinha desenterrado aquele conjunto.

Entreguei as contas para ela dentro de uma pastinha preta:
-Aqui está: água, luz, telefone...
-E as coisas que você tem sentido ultimamente, não vai pagar?
-Como assim?
Bom, no mundo imaginário, para você sentir isso ou aquilo de maneiras não naturais é preciso pagar.
-Pagar por sentimentos?

Ela tinha razão. Andei me aproveitando demais da tristeza e da decepção, tanto que fiquei devendo.
Excitei-me com o fato de que chegaria a doer pagar aquilo, mas me controlei. Eu estou precisando economizar.

Exigi que ela me apresentasse os recibos (vai que gastasse tudo em balas!)

-Mas e esse valor aqui? Que absurdo, eu não lembro no que foi que eu gastei isso!
-Foi daquele dia em que você se sentiu menos que nada.
“Ah bom”, eu pensei. Sai resmungando sem parar, e Juliana se despediu dizendo:

-E sinta-se agradecida por não te cobrarem a taxa de trouxisse...

domingo, 12 de agosto de 2007

Há dias Juliana construía uma gaiola para pegar passarinhos.
Era um dia ensolarado, e ela preparava a armadilha no jardim. Ela espalhava pedacinhos de pão em uma linha reta desde a calçada, passando pelo portão, até o interior da gaiolinha, da qual pendia um chocolate e algum outro doce.
Ela observava de longe e sorria com satisfação, “tinha feito um bom trabalho”.

Ela protegia o rosto com a mãozinha e olhava pro céu esperando por algo.

Me ajoelhei na frente dela para ficar do seu tamanho e indaguei o que ela queria com aquilo. Ela disse: “não é para mim é para você...”

-Estou tentando pegar o garoto-inspiração!
(O garoto-inspiração é uma espécie de lenda no lugar de onde Juliana veio).

-Você vai escrever como nunca e não vai precisar de mais nada. A inspiração vai te preencher de tal forma que não vai precisar nem mesmo se alimentar.

Não acreditei que aquilo pudesse ser real, mas com todas as situações que pude experimentar depois que conheci Juliana, não há nada que eu possa duvidar. E então esperei.

Já era madrugada e adormecemos. Acordei com um som vindo da gaiola. Minhas costas estavam doloridas, pois eu havia adormecido encostada no muro. Juliana estava deitada no meu colo. Tentei me desvencilhar dela de maneira que não a acordasse.

Preso na gaiola, vi um garoto nu, muito pálido e com cabelos cor de fuligem.

Ele olhava ao redor, com curiosidade. As flores, as árvores, até mesmo o meu cachorro deitado na soleira da porta, tudo para ele era fascinante. Eu esperava que ele olhasse pra mim. Ele olhava em minha direção, mas seu olhar me atravessava como se eu não estivesse ali.

-Você pode vê-lo, mas ele não pode ver você.

Ele era belo e portador de um vazio profundo. Próxima dele eu senti todos os tipos de coisas. Eram sentimentos mágicos aos quais os homens não conseguiram nomear. Não consegui resistir e o toquei. Ele repeliu o meu toque e se afastou assustado.

-Agora ele é seu. Vai inspirá-la, mas não vai ler nada do que você escrever. Tenha cuidado, ele pode feri-la.

Minhas mãos tatearam no escuro, desesperadas por uma caneta. Eu também não tinha folhas. Encontrei a caixinha de giz de Juliana e comecei a escrever ali mesmo na calçada. A necessidade de escrever era mais forte do que eu.

Poemas, versinhos e piadas, brilhavam em rosa, amarelo e azul, fluorescentes pela luz da noite. Escrevi até cair no chão, extasiada.

Depois que o conheci, senti a rejeição e com ela a felicidade que não lembro ter sentido antes.

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Juliana nunca me pede nada.
Ela foi numa dessas feirinhas e ganhou de brinde peixinhos dourados. E no inconveniente de mantê-los em um saquinho plástico com água, me pediu para que comprasse para ela um aquário. Eu não sabia como dizer não. Fui juntando todas as minhas moedas. Só o que pude comprar foi um desses arredondados e pequenos. “Para dois peixinhos vai servir!”
- Trinta e três? Trinta e três peixinhos dourados?
Ela olhava fascinada para eles, espremidos dentro do aquário minúsculo.
-Juliana, você não pode deixá-los aí, são muitos!
Mas ela estava tão feliz que pouco se importava.
Fui dormir pensando nos peixes de Juliana. E em como mal acomodados estavam. Fui tomada pela ansiedade. A culpa era minha afinal. Por que não comprei um aquário maior? A culpa era minha.
E durante aquela noite, os peixinhos se vingaram. Aproveitaram enquanto eu sonhava, distraída. Entraram em meu coração e fizeram dele seu aquário. Mas meu coração também é pequeno, muito pequeno. Eles se debatiam e se debatiam. As suas escamas arranhavam. Ah, que dor. Achei que iria explodir, quanta dor. Eu me encolhia e me retorcia na cama. Era quase impossível respirar. Eu não queria respirar. Assim foi durante dias até o dia em que posso dizer que me acostumei com eles. Eles se acostumaram comigo. Começaram a se debater no mesmo ritmo das batidas do meu coração. Ainda sinto seus movimentos dentro do peito. Tão tímidos, tão dolorosos, prazerosos. As suas barbatanas hoje me fazem cócegas, como se dissessem “ estamos aqui”.

E depois que a melancolia fez parte de mim, nada mais me atingiu.

sábado, 4 de agosto de 2007

-Ah grande porcaria!
Juliana chutava uma caixinha de papelão, e amassava e rasgava o que parecia ser o manual de instruções da maquininha de ler pensamentos.
-Não acredito que fui enganada!
O aparelho não havia funcionado e ela estava muito, mas muito decepcionada.
-Eu te prometo, da próxima vez vou te trazer uma máquina de dissimulação e fingimento, essa sim eu sei que funciona.

Tive que concordar com o que ela disse. E imaginei que este recurso seria muito útil para mim. Eu digo o que eu penso o tempo todo, por isso que as pessoas pensam que eu sou louca.

Me sentei na frente do computador pra passar o tempo. Não esperava que fosse escrever alguma coisa já que não estava deprimida o suficiente ou feliz o suficiente.
Mas mesmo assim os dedos tamborilaram desesperadamente sobre as letrinhas do teclado.

Nossa quanta alienação. Eu não leio o jornal, não vejo mais tv. Mas em compensação aprendo uma coisa maravilhosa a cada dia. Viver é mesmo fantástico! E é incrível como a minha fonte de inspiração são as coisas que eu não sei.
Na duvida, eu pergunto pra ela:
-Juliana, o que eu faço?
-Diga sempre obrigado, peça desculpas e perdoe sempre.

domingo, 29 de julho de 2007

Não tenho visto Juliana ultimamente. Ela anda ocupada, pois foi convidada para fazer um curso avançado, desses em que pessoas como eu não passariam nem na primeira etapa. Hoje é segunda-feira, dia da aula de “coisas maravilhosas - modulo I”. Fui abandonada pelo imaginário e odeio ter que me ocupar com coisas reais.

Ela me deixou sozinha e sem a ajuda dela não consigo escrever nada que tenha nexo.
Passei dias e dias em tremenda ansiedade. A inspiração se foi me deixando num silêncio profundo. Não conseguir escrever chega a ser doloroso de tão insuportável. Eu tenho uma vontade grande de escrever, no entanto os dedos não se movem, as idéias não nascem...

A abstinência durou dias, até esta tarde.

Escuto a campainha tocar. Atendo, e que surpresa! É um jovem estranho!

Ele usava um chapéu preto, esquisito. Seus cabelos loiros definitivamente pediam um corte. Ele entrou sem ser convidado. Eu me sentei no sofá e ele sentou ao meu lado, no chão. Eu não conseguia tirar os olhos das linhas do seu rosto. Nem percebi que ele segurava um pacote.
-Olá, sou amigo de Juliana, ela me pediu que lhe entregasse isto.
Eu segurei o embrulho com as minhas mãos e percebi que embora pequeno, era muito pesado.
-Ela queria que você o tivesse antes que ela voltasse.
Ele indicou com o dedo. Havia um bilhetinho colado abaixo do pacote.

“Isso que você tem agora é uma máquina de ler pensamentos a manivela. Acho que pode ser útil com o seu problema com garotos”.
Me senti envergonhada pois pude imaginar que ele o havia lido no caminho e devia estar sentindo muita pena de mim.
Por fim ele disse:
-Usar isso ou não depende de você.
Ainda antes de ir se ofereceu para me ajudar a escrever. Talvez em outra oportunidade, eu disse. Mas mesmo assim, me deixou o que parecia até um poema:

“Linda como o vento foi a noite
E bela como a manhã suas estrelas
Brilhavam em seu olhar
Ah meu amor que saudade
Do balançar dos galhos das árvores
Acima de nós
Como o céu
Só que um céu mais próximo
Um em que possamos tocar”

Fechei a porta pensando em Juliana e pensando se queria aceitar o presente.

sábado, 14 de julho de 2007

Acho que sonhei com isto. Não esta noite, outra noite. Jogávamos um jogo. Eu perdi.

E você me dava um beijo de consolação, sensação de lábios anestesiados, que atordoante!

Adormeço no sonho. Acordo e adormeço, tenho outro sonho. Acordo e vou correndo te contar o sonho do meu sonho, só pra ver se consigo levantar.

E cantarolo, e pulo, e danço, hiperativa pela noite. Não consigo desligar.

Um movimento inconsciente agarra o travesseiro procurando o seu abraço.
(o seu abraço, o dele ou o daquele, são todos iguais, eu sou capaz de amar todo o mundo e qualquer um).

Uma porção de anjos agora dançam uma dança de roda ao redor de mim.

Vejam todos eles, são todos eles meus amantes!

Acordo no meio da madrugada sentada em meio as flores no meio do jardim:
-Morgana, o que você está fazendo?

domingo, 8 de julho de 2007


Eu estava delirando em febre, mas mesmo assim me preparava para sair. Sai do banho e enrolei uma toalha ao redor do peito como se fosse uma atadura.
Juliana estava sentada na minha frente. Ela me imitava. Uma das pernas dobrada sobre o joelho e a mão direita puxando o cabelo da raiz até a ponta, só que delicadamente. Me observava com atenção. Não sei o que tentava aprender. Acho que na verdade tentava me ensinar como as outras pessoas me viam. Ela copiava meus trejeitos tão bem que por um momento pensei ver sentada ali minha miniatura.

Ela é uma menina pequena e magra. Tem o porte de uma criança de quatro anos, mas a curiosidade de uma de seis. Se esconde muito bem devido ao seu tamanho e é impossível alcança-la quando corre. Suas mãos são duas anarquistazinhas. Ela considera seu corpo um ótimo recipiente por causa da sua praticidade, principalmente quando o veste com pijamas.

Juliana é maravilhosa de tão fantástica. Sua luz sempre me ofuscou.
Ela tem uma vontade de viver já e desesperadamente. Contagiante. Enquanto eu não sei dançar e fotografo muito mal. Enquanto e sou sócia da auto-depreciação e da decepção sou a maior consumidora.

Calcei os sapatos e sai. Tranquei a porta com muito cuidado para não acordar ninguém. Eu não me sentia muito bem. Achei que ia vomitar mas para minha surpresa eram lagrimas. Muitas e muitas e soluçantes.

Cansada de esperar, sento no cordão da calçada e Juliana vem me perguntar:
-Nhami! É bolo de que?

sábado, 30 de junho de 2007

Juliana mexia onde não devia, quando deixou cair no chão uma saboneteira em forma de coração.
Ela recolhia os pedaços com decepção. E pensaria em como os seus pais ficariam brabos se não fosse órfã.
A orfandade de Juliana é maneira de dizer, ela está apenas separada deles.
Foi separada de seu convívio prematuramente, e vive longe de sua família.
Juliana não existe, mas em frente a sua morada coberta por folhas há uma placa dizendo que sim.
Ficamos amigas, quando um dia ao passar, decidi para ela fazer um jardim.
Ela me falou da sua solidão e eu contei para ela o que eu sabia da vida.
Ela tinha uma curiosidade imensa em saber como funcionava. Afinal, o que há de se fazer! Bem, porque, deveria de ter um propósito essa coisa toda não?
Ela me espiava da janela, indo e vindo indo e vindo, e como vizinha atenciosa queria saber o que eu estava fazendo.
Vivendo, oras, eu respondi.
Pela sua percepção aguçada, Juliana achava aquilo muito divertido. Várias vezes peguei ela observando minha vida com um balde de pipocas.
Eu terminei com um namorado, e ela cheia de excitação, veio correndo me perguntar, que diabos, onde está o próximo?
Ela gosta de mim, então adora me ver feliz. Mas quanta emoção em me ver quebrando a cara.
É um sábado à noite, e ela esta cheia de ansiedade a espera das cenas do próximo capítulo.
E eu estou começando a perder a paciência. Vou ficar sentada aqui, olhando pra parede, não vou falar, nem vou fazer nada. Nada acontece na vida se a gente não fizer absolutamente nada. Perfeito, assim estarei segura.
-então hoje não tem matinê?
Você não está perdendo nada, eu disse.
E ela saiu correndo porta a fora, com ares de quem ia contar para alguém.

segunda-feira, 11 de junho de 2007


De tanto sentar ao meu lado enquanto eu escrevo, Juliana aprendeu a digitar algumas palavrinhas. E que palavrinhas feias essas que ela digitava agora. Não sei dizer ao certo quais palavras eram, pois ela teve o cuidado de escrever no seu idioma. Idioma esse que ela mesma inventou, coisa que só quem não existe pode se dar ao luxo de fazer e ainda manter a credibilidade.

Era nada menos do que uma maneira de me ignorar. Não estamos nos falando no momento, por uma questão de sintonia. Acho que ela está ocupada com outra pessoa mais interessante do que eu.

Ela estava alegre. Não sei como alguém tão pequeno consegue lidar com tanta felicidade. Eu no lugar dela me atrapalharia e acabaria estragando tudo. Podia-se ouvir risadinhas, gritinhos de sucesso, isso quando ela não passava correndo de um lado para o outro ou ensaiava os passos de algum tipo de dança de comemoração.

Eu tomava meu café da manhã. Café com leite, pão com margarina e cuca de chocolate. É a melhor refeição do dia pra mim.

Eu pensaria em cortar meus pulsos com a faquinha suja de margarina se não estivesse tão desanimada. Não que eu estivesse triste. A questão era que eu não estava nada. E isso me incomodava.

Ao menos era um daqueles dias em que eu me sentia bonita. A tinta da noite anterior escorria do meu rosto, o preto dos olhos se misturava com o rosa dos lábios e transformava minha cara numa tela a óleo rosa-escuro-fluorescente, graças ao pó brilhoso que peguei emprestado da minha avó. Meu cabelo, cada dia mais loiro, estava sujo, mas armado da escova que eu fiz três dias antes.

Eu parecia uma daquelas bonecas de cera. Não me importaria de ser assim para sempre, superficial e sem sentimentos. Não precisaria pensar, dizer ou sentir nada, apenas ser a minha representação. Uma imagem e nada mais. E de quando em quando alguém teria a delicadeza de me mover de um lado para o outro da vitrine e tirar as teias de aranha por consideração.

Eu não teria um cérebro e isso com certeza, facilitaria a vida de algum suposto pretendente meu.

E eu também não teria ouvidos para escutar as suas satisfações mentirosas quando por educação ele achasse que as devesse dar.

Ambos sairíamos ganhando.

E quando eu morresse, ao ser aberta na hora da autópsia, o diagnóstico do médico legista diria: “Ela era um saco vazio”. Eu estava entediada, então me agarrava a qualquer tipo de pensamento melancólico como forma de entretenimento.

Silêncio na sala. Juliana estava ocupada com uma caixa de lápis de cor. E numa folha de cartolina pintava um coração de vermelho. Ela fazia um cartão para o dia dos namorados. Estava explicado o mistério daquela alegria toda. Datas comerciais deixam a minha pequena nas nuvens.

Foi um fato novo para mim. Juliana tinha um namorado imaginário. E apressadamente ela correu até a caixinha do correio. E mesmo passada a data, por dias ela esperou e esperou em vão pelo homem azul e amarelo.

Sentadinha no meu colo ela balançava a cabeça com pesar:
-Nunca ninguém me amou tão desamorosamente.

domingo, 3 de junho de 2007

Acordei em meu quarto, debaixo de cinco cobertores e ainda vestindo calça jeans. Coloquei o nariz pra fora dos cobertores como forma de investigação. “Não acredito que ainda estamos no inverno”, pensei. Parecia ter passado meses desde meu último contato com o mundo. Eu tentava criar coragem para levantar e enfrentar a vida e o frio. Dizem que faz mal alimentar expectativas antes de dormir. Ou seria o estômago?

Comecei a ter aquela estranha sensação de que era o dia do aniversário de alguém. E para eu ter esquecido, provavelmente devia ser alguém importante.
Fiquei imaginando o que essa pessoa deve ter pensado quando decidiu nascer: “Grande idéia! Vou pra um lugar cheio de gente sem fazer a mínima idéia do que fazer ou de quem eu sou e entrar na dança: tristeza, euforia, tristeza, euforia...vazio!”

Será que recebeu algum tipo de treinamento? Será que alguém pediu seu consentimento?

Como todos nós, ela nasceu como uma folha em branco. Seus pais fizeram os primeiros rabiscos. Desenharam o que sabiam de melhor. Depois foi conhecendo outras pessoas que também deixaram suas impressões. Hoje ela é uma bela obra de arte, cheia de lembranças e pequenos traumas. Pronta pra pendurar na parede! Se unirá a um lindo quadro e terá outros três pequenos quadrinhos. Uma vernissage!

Se a vida não faz sentido, também não faz sentido levantar cedo no sábado de manhã.

Estava delirando de sono.

Afundei a cabeça no travesseiro novamente e me espalhei pela cama, esticando braços e pernas. Lamentavelmente percebi que estava só e em minha companhia. Acho que não dormi muito bem, ou então sonhei com a rachadura na parede a noite toda. Estava cansada. Meus olhos ficaram pesados até ficarem grudadinhos, então adormeci de novo.

Sonhei que estava em um grande salão cheio de gente. Todos se moviam em uma espécie de dança muito animada, quando a música parou e todos aqueles olhinhos dançantes se voltaram para mim. Uma moça se aproximou. Acho que era a anfitriã, pois me convidou para que me juntasse a eles.

-Mas não sei dançar.
-A vida te ensinará!
Ela disse.

Dei os meus primeiros passos pela pista, receosa. Dois para direita, dois para esquerda...e ...girar!
Em círculos, os pés deslizavam pelo chão e eu via rostos conhecidos. Você, você e você também estavam lá. Que grande coincidência!

Aí então entendi.

Tristeza, quando ninguém te tira para dançar. Euforia, ao rodopiar e rodopiar nos olhos de alguém. Vazio, ao estar sentada de novo na cadeira com as mãozinhas sobre o colo como uma boa moça.

Alguns têm talento, outros como eu precisam usar suas melhores sapatilhas.
É frustrante, mas não vou desistir. Sou uma aluna ansiosa e tenho a maldita felicidade como meta.

Percebi que não há nada de errado com a minha vida. Na verdade acho que agora ela está como deveria estar. Embora não me sentisse a vontade com a música que estava tocando.

Atravessei aquele salão de sonho como se ele fosse meu. Parei em frente ao toca-discos. Nem mesmo me importei com o olhar de reprovação dos dançarinos. A música parou. Segurei o disco de vinil com as duas mãos e procurei algum nome que me agradasse.
-Este aqui!
Juliana o surrupiava da minha mão com os seus dedinhos.
- Este vai dançar com você!
Coloquei o disco para tocar e planejava pousar a agulha em seu nome quando fui interrompida.

-Este aqui! Este aqui!

Acordei com os gritos incessantes de Juliana. Era dela o aniversário, afinal. Ela estava eufórica e segurava um catalogo de compras. E me implorava que comprasse para ela um animal em extinção.

Passei o resto da manhã enchendo balões. E a cada sopro eu lembrava do sonho que tive. Ele me perturbou. Pessoas de todos os lugares vieram para o aniversário da minha pequena, tamanha a sua popularidade. Em meio as palmas, e o bolo sem velas, a lembrança dele ainda me entristecia. Mas à noite, ao tirar meu chapéu de festa, ele já será parte do passado, e eu o esquecerei.

domingo, 20 de maio de 2007

Estava sentada no sofá tentando aquecer meus pés gelados enquanto Juliana me espiava, de dentro do quarto, escondida entre os cobertores. Ela não parecia bem naquele dia. Acho que estava doente. Não comia e nem respirava. Sentia-se tão pequena que eu podia pega-la na palma da minha mão. Menor do que uma formiga ou qualquer outro bicho. Não falava comigo. Mas assentia com a cabeça quando eu perguntava se estava bem. Embora houvesse uma tristeza no fundo de seus olhinhos cheios de ansiedade. Como se tivesse um nó na garganta e uma pedra sobre o peito. Não me assustei muito com isso. Eu já sabia o que estava por vir. Mais tarde, ela quebrou dois de nossos acordos: um que não me acordaria no meio da noite, outro que nunca faria isso puxando o meu pé (A desculpa dela foi que, como também tínhamos combinado que nunca mais sussurraria em meu ouvido, não encontrou outra maneira).
Agora ela estava sentada ao pé da minha cama. Assustadoramente revigorada.
-Vamos escrever alguma coisa!
-Não ta conseguindo dormir? Vai assistir um desenho!
Mas era incrível como a menina era persistente e persuasiva.
Levantei da cama, preparei um café e fui para a frente do computador.
Pousei os dedos sobre o teclado e ela sentou ao meu lado.
Ela queria que eu contasse uma história sobre algo que havia acontecido com ela e achou apropriado que eu escrevesse aqui:

Juliana cortou o dedinho. Sentada na calçada fitava com os olhos parados o pequeno lago vermelho.
-Me deixe ver isso:
-Ela me feriu.
E esticou o braço em direção a uma suntuosa árvore, de galhos imensos e de tronco largo, adornado de afiados espinhos.
Eu nunca tinha reparado nela. Talvez como tudo na vida sempre estivesse ali. E eu ocupada demais pra perceber. Eu tinha flores mais frágeis pra cuidar. Talvez a minha falta de atenção agora a tivesse tornado nociva.
-Com seus espinhos?
Ela assentiu com a cabeça.
Me contou que havia se encantado com ela. Com a maciez das flores branquinhas que pendiam dos seus galhos. Ela oferecia tanto, tanto. Decidiu procurar por mais e se machucou. Ao invés de recolher as migalhas que ela deixava cair lá do alto decidiu se aproximar. Seu afeto a assustou. Ela se defendeu da única maneira que conhecia: afastando- a. E para isso precisava feri-la. Ao chegar perto do seu tronco, sentiu uma leve espetada. E caiu para traz num susto. A dor só veio depois. Quando sentiu o calor. O calor de algo que vem lá do fundo. Aflorando como num grito! O sangue jorrou e aí percebeu: estava viva! E ficou ali quietinha contemplando, o fascinante ato de sentir. Ah sentir... sentir e jorrar palavras como se jorrasse sangue! Em meio à dor, um leve sorriso. Pois no bolsinho do casaco havia um papel e uma caneta. Era a salvação. E ali mesmo lhe serviu de curativo.

Até hoje esperamos ela se curar.
Dia terrível aquele que valeu a pena.

domingo, 13 de maio de 2007

Sem o mínimo de empolgação eu digitava um trabalho para a faculdade, quando senti alguém parado atrás de mim, batendo o pezinho no chão, impaciente. Eu decidi ignorar. Estava feliz demais e sem paciência para ela naquele momento.
Horas passaram e eu estava distraída, quando pelo canto do olho vi o vulto de uma coisa pequena cruzando o corredor.
Era minha colaboradora. Usava seu vestidinho favorito e sobre o ombro tinha um cabo de vassoura com uma trouxinha de roupas amarrada na ponta. E na ponta dos pés, tentava abrir a porta para sair da casa.
-Vou abandonar tudo!
-Como assim vai abandonar tudo?
-Estou indo embora.
-Embora pra onde? Não gosta mais de mim?
-Gosto. Claro que gosto, sou sua amiga.
-Mas então qual é o problema?
-Bom, é que não quero crescer e ser como você. (!!!)
Nossa! Aquilo doeu! Foi como se ela tivesse subido num banquinho e me dado um tapa.
Fiquei em silêncio por alguns minutos. Não estava mais acostumada com a sinceridade infantil.
-Quero ser livre.
-Mas eu sou livre! Sou maior de idade, meus pais não mandam mais em mim, tomo minhas próprias decisões, posso sair, posso namorar...
A pequena torceu o nariz. Ficou me olhando de cima a baixo, ponderando o que ia dizer, quando apontou o dedinho para os meus pés.
-O que é? Meus sapatos?
- Você não precisava deles...
-Claro que precisava! Eles combinam com este casaco!
-E ainda nem terminou de pagar...
-Mas tinha 10% de desconto!
Depois dessa, Juliana já girava a chave...
-Calma aí. Só por isso?
-Não é só isso. Já reparou como você sempre anda estressada? Acorda de manhã, vai para o trabalho. Quando volta pra casa já tem que sair de novo para a faculdade. Quando chega, tem quinze minutos para comer e seis horas para dormir. Mal tem tempo pra você mesma. E alguma vez já se perguntou se gosta disso que está fazendo?
-...
Retomei o fôlego e tentei explicar a ela a realidade que ainda é muito jovem pra entender.
-Adultos não se perguntam essas coisas. Trabalhamos e ganhamos pouco para pagar a faculdade e as quinquilharias baratas que compramos, para um dia arrumar um emprego melhor, para ganhar mais, para poder comprar quinquilharias mais caras. Depois casamos, temos filhos, netos, talvez bisnetos e daí morremos. Alguns de nós são felizes.
-É por isso que estou indo embora. Não quero essa vida pra mim. Não quero ser uma velha frustrada. Vou pra algum lugar, pra praia, pro campo, tanto faz. Vou começar com uma plantação de alface. Depois mais pessoas se juntarão a mim e poderemos cultivar outras coisas. Aí seremos uma comunidade e você poderá se juntar a nós. Você odeia o seu curso mesmo.
-Eu gosto muito do meu curso!
Ela saiu pela porta e eu atrás dela. Fiquei muda sem saber o que dizer. Juliana abriu o portão e olhou ao redor como se encarasse os rostos de pessoas imaginárias de quem estivesse se despedindo.
Tempo se passou e Juliana continuava sentadinha na calçada. A verdade é que ela não tinha para onde ir. Fui me juntar a ela como quem diz “eu sei, eu sei”, depois entramos e eu preparei pra ela um chocolate quente.
Naquela noite fomos dormir cedo. Era domingo e no dia seguinte as coisas iriam continuar se repetindo indefinidamente.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Acordei pela manhã e encontrei Juliana se quebrando pra empacotar um presente:
- Pra quem é isso?
-Pra um menino da minha sala.
-Ele tá de aniversário?
-Não.
-Mas pra quê então tu vai dar um presente pra ele?
-Não é só pra ele. Brincaremos juntos.
Aquilo não dava pra se chamar de presente. O papel estava enrolado e amarrotado envolta da caixa e tinha figuras estranhas. E podia apostar que o conteúdo daquele pacote era duvidoso (um monstro? uma bomba? algo doce?). Era evidente que ela não fazia a mínima idéia do que estava fazendo.
Por alguma razão, aquela conversa começou a me deixar tonta. Deitei no sofá e estiquei as pernas pro alto.
Não demorou muito para a “miss fita-adesiva” começar a correr gritando em volta da mesa com um pedaço de fita vermelha na mão. Queria mandar a pirralha calar a boca, mas me controlei (tem dias que não dá pra agüentar...).
Era sábado e eu estava em casa esperando. Esperando pelo quê? Eu também não fazia a mínima idéia do que estava fazendo. Levantei e me olhei no espelho. Meu cabelo estava sujo e desgrenhado. Eu ainda estava de pijamas. E uma meia listrada e outra amarela com certeza não são um par. Reparei nos meus olhos castanhos. Pequeninos. E lá no fundo vi que algo brilhava. E lá de dentro uma estranha, com os olhos fixos em mim, tentava algum tipo de apresentação. Acenou timidamente e ameaçou um sorriso. Talvez ela pudesse me dizer o caminho. “Quem eu sou? O que estou fazendo? Escrever pra quê? Qual é o sentido?”. Penso que talvez escrever essas coisas seja uma forma assustadora de exposição-queimação-de-filme. E de onde surge a inspiração afinal? Talvez eu tenha uma ótima memória e seja um plágio ambulante. Eu poderia soltar um bando de palavrinhas bonitas e fazer de conta que eu sou inteligente. Mas posar de doida sempre foi mais divertido. Eu deveria estar preocupada em mostrar o meu melhor. Eu deveria estar me preocupando se alguém vai gostar. Por que perco meu tempo com isso? (eu pagaria um psicólogo pra me responder, mas Juliana não gosta deles).
Minhas dúvidas assustaram a garota no espelho e ela escapou. E até hoje não sei quem ela é. Entendo que ela não queira se expor. O que eu via era um pacote feio e de conteúdo duvidoso.
Me desvencilhei daquela imagem sem saber o que eu sentia por ela. Me sentia saindo de outro mundo e voltando ao meu. Onde o céu era nublado e agora chovia.
Não me espantaria se no futuro eu descobrisse que sou eu aquela estranha, e não esse ser superficial, coberto de maquiagem.
No fundo da sala, Juliana continuava entretida com alguma espécie de sabotagem.

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Juliana ganhou um par de galochinhas vermelhas que ela gosta muito. Quando perguntei o por que ela disse: “porque sim”. Sábia resposta. Ninguém sabe exatamente por que gosta de alguma coisa. Ela pensou um pouco mais, e respondeu: “porque elas me levam aos lugares”. Achei um amor a ingenuidade daquela resposta e só pude pensar que ela se referia a seus pés. Eu já tinha bebido umas três taças de vinho e comecei a viajar num par de tênis cor-de-rosa que eu tenho. Ele está velho e gasto. Não lembro quando eu o lavei pela ultima vez. Tem algumas partes descolando. Ele me esquenta, me conforta. E eu piso nele. Pensei que se sapatos tem sentimentos ele deve estar se sentindo muito deprimido. Ele dá a vida por mim eu nunca fiz nada por ele. Um amor não correspondido!

Percebi que tenho vários sapatos no armário. E provavelmente sou o sapato de alguém.

Usamos as pessoas que nos querem bem e não percebemos. Ou até percebemos, mas por alguma razão achamos que elas se sentem felizes com isso. Algumas vezes temos a tendência de gostar das pessoas pelo que elas fazem por nós e não por elas serem quem são. Tentamos mudar as pessoas. Queremos que elas sejam o nosso número, e com isso as sufocamos. Tratamos as pessoas como seres inanimados, como se não tivessem vida própria além de servir aos nossos desejos.

Nunca nos desculpamos por isso. E nem vamos, não é mesmo?

O que eles diriam se tivessem voz! Se debruçariam, chorariam e lágrimas correriam pelos cadarços? Ou simplesmente permaneceriam calados por que nos amam incondicionalmente?

Enquanto eu lavava meu tênis rosa pela terceira vez, Juliana parada na porta da lavanderia repetia: “sapatos, são apenas sapatos”.

terça-feira, 1 de maio de 2007

Juliana me pediu pra publicar esta lista aqui...

Medos da semana:

Formigas
Meninos
Balões de gás (?)


Tudo bem. Formigas eu concordo plenamente. São pequenininhas e andam em grupos (a união faz a força!). Meninos é compreensível, devido a idade da minha jovem (mas não menos importante) colaboradora, que chegou esses dias com um halls emaranhado no cabelo (foi mal divulgar isso, mas não pude perder a oportunidade).
Agora, balões de gás?

Lembrei daqueles balões que eram vendidos nos parques e feiras lá por 89...
(a idade um dia chega pra todo mundo).

Lembro da primeira vez que meu pai comprou um pra mim: “segura firme, se não ele voa alto, alto e eu não vou conseguir pegar”.

O balão era prateado, com uns desenhos coloridos em rosa e azul. E eu soltei, é claro.

A emoção de se arriscar só pra ver o que acontece. É a graça da vida. Não temos controle sobre tudo, e é isso que torna a vida emocionante.

Devo ter chorado durante uns dez minutos. E duas horas depois, eu já tinha outro balão, amarrado no dedinho ( outra coisa maravilhosa é que aprendemos com nossos erros).

Cheguei em casa fascinada com o meu novo amigo. Nos divertimos durante horas, extasiados. Até ele cair, deitado no chão, murcho.

A paixão acabou, e no final de semana seguinte o que eu queria mesmo era um algodão doce (do cor-de-rosa, não do amarelo).

Na verdade, balão, algodão doce ou menino, a alegria que proporcionam é mesma (de acordo com a idade e opção sexual de cada um é claro).

O que me faz concluir que temos uma tendência quase animal de buscar a felicidade, e as coisas ou pessoas são substituíveis.

O amor acaba, renasce, se renova. Caímos no chão deprimidos e murchos, mas logo aparece alguém para nos encher de ar de novo. E ficamos flutuando no teto de nosso quarto, com o um sorriso de orelha a orelha como se respirássemos gás hélio.

E essa é a vida. E temer a vida é como ter medo de algo estúpido como formigas.