domingo, 20 de maio de 2007

Estava sentada no sofá tentando aquecer meus pés gelados enquanto Juliana me espiava, de dentro do quarto, escondida entre os cobertores. Ela não parecia bem naquele dia. Acho que estava doente. Não comia e nem respirava. Sentia-se tão pequena que eu podia pega-la na palma da minha mão. Menor do que uma formiga ou qualquer outro bicho. Não falava comigo. Mas assentia com a cabeça quando eu perguntava se estava bem. Embora houvesse uma tristeza no fundo de seus olhinhos cheios de ansiedade. Como se tivesse um nó na garganta e uma pedra sobre o peito. Não me assustei muito com isso. Eu já sabia o que estava por vir. Mais tarde, ela quebrou dois de nossos acordos: um que não me acordaria no meio da noite, outro que nunca faria isso puxando o meu pé (A desculpa dela foi que, como também tínhamos combinado que nunca mais sussurraria em meu ouvido, não encontrou outra maneira).
Agora ela estava sentada ao pé da minha cama. Assustadoramente revigorada.
-Vamos escrever alguma coisa!
-Não ta conseguindo dormir? Vai assistir um desenho!
Mas era incrível como a menina era persistente e persuasiva.
Levantei da cama, preparei um café e fui para a frente do computador.
Pousei os dedos sobre o teclado e ela sentou ao meu lado.
Ela queria que eu contasse uma história sobre algo que havia acontecido com ela e achou apropriado que eu escrevesse aqui:

Juliana cortou o dedinho. Sentada na calçada fitava com os olhos parados o pequeno lago vermelho.
-Me deixe ver isso:
-Ela me feriu.
E esticou o braço em direção a uma suntuosa árvore, de galhos imensos e de tronco largo, adornado de afiados espinhos.
Eu nunca tinha reparado nela. Talvez como tudo na vida sempre estivesse ali. E eu ocupada demais pra perceber. Eu tinha flores mais frágeis pra cuidar. Talvez a minha falta de atenção agora a tivesse tornado nociva.
-Com seus espinhos?
Ela assentiu com a cabeça.
Me contou que havia se encantado com ela. Com a maciez das flores branquinhas que pendiam dos seus galhos. Ela oferecia tanto, tanto. Decidiu procurar por mais e se machucou. Ao invés de recolher as migalhas que ela deixava cair lá do alto decidiu se aproximar. Seu afeto a assustou. Ela se defendeu da única maneira que conhecia: afastando- a. E para isso precisava feri-la. Ao chegar perto do seu tronco, sentiu uma leve espetada. E caiu para traz num susto. A dor só veio depois. Quando sentiu o calor. O calor de algo que vem lá do fundo. Aflorando como num grito! O sangue jorrou e aí percebeu: estava viva! E ficou ali quietinha contemplando, o fascinante ato de sentir. Ah sentir... sentir e jorrar palavras como se jorrasse sangue! Em meio à dor, um leve sorriso. Pois no bolsinho do casaco havia um papel e uma caneta. Era a salvação. E ali mesmo lhe serviu de curativo.

Até hoje esperamos ela se curar.
Dia terrível aquele que valeu a pena.

domingo, 13 de maio de 2007

Sem o mínimo de empolgação eu digitava um trabalho para a faculdade, quando senti alguém parado atrás de mim, batendo o pezinho no chão, impaciente. Eu decidi ignorar. Estava feliz demais e sem paciência para ela naquele momento.
Horas passaram e eu estava distraída, quando pelo canto do olho vi o vulto de uma coisa pequena cruzando o corredor.
Era minha colaboradora. Usava seu vestidinho favorito e sobre o ombro tinha um cabo de vassoura com uma trouxinha de roupas amarrada na ponta. E na ponta dos pés, tentava abrir a porta para sair da casa.
-Vou abandonar tudo!
-Como assim vai abandonar tudo?
-Estou indo embora.
-Embora pra onde? Não gosta mais de mim?
-Gosto. Claro que gosto, sou sua amiga.
-Mas então qual é o problema?
-Bom, é que não quero crescer e ser como você. (!!!)
Nossa! Aquilo doeu! Foi como se ela tivesse subido num banquinho e me dado um tapa.
Fiquei em silêncio por alguns minutos. Não estava mais acostumada com a sinceridade infantil.
-Quero ser livre.
-Mas eu sou livre! Sou maior de idade, meus pais não mandam mais em mim, tomo minhas próprias decisões, posso sair, posso namorar...
A pequena torceu o nariz. Ficou me olhando de cima a baixo, ponderando o que ia dizer, quando apontou o dedinho para os meus pés.
-O que é? Meus sapatos?
- Você não precisava deles...
-Claro que precisava! Eles combinam com este casaco!
-E ainda nem terminou de pagar...
-Mas tinha 10% de desconto!
Depois dessa, Juliana já girava a chave...
-Calma aí. Só por isso?
-Não é só isso. Já reparou como você sempre anda estressada? Acorda de manhã, vai para o trabalho. Quando volta pra casa já tem que sair de novo para a faculdade. Quando chega, tem quinze minutos para comer e seis horas para dormir. Mal tem tempo pra você mesma. E alguma vez já se perguntou se gosta disso que está fazendo?
-...
Retomei o fôlego e tentei explicar a ela a realidade que ainda é muito jovem pra entender.
-Adultos não se perguntam essas coisas. Trabalhamos e ganhamos pouco para pagar a faculdade e as quinquilharias baratas que compramos, para um dia arrumar um emprego melhor, para ganhar mais, para poder comprar quinquilharias mais caras. Depois casamos, temos filhos, netos, talvez bisnetos e daí morremos. Alguns de nós são felizes.
-É por isso que estou indo embora. Não quero essa vida pra mim. Não quero ser uma velha frustrada. Vou pra algum lugar, pra praia, pro campo, tanto faz. Vou começar com uma plantação de alface. Depois mais pessoas se juntarão a mim e poderemos cultivar outras coisas. Aí seremos uma comunidade e você poderá se juntar a nós. Você odeia o seu curso mesmo.
-Eu gosto muito do meu curso!
Ela saiu pela porta e eu atrás dela. Fiquei muda sem saber o que dizer. Juliana abriu o portão e olhou ao redor como se encarasse os rostos de pessoas imaginárias de quem estivesse se despedindo.
Tempo se passou e Juliana continuava sentadinha na calçada. A verdade é que ela não tinha para onde ir. Fui me juntar a ela como quem diz “eu sei, eu sei”, depois entramos e eu preparei pra ela um chocolate quente.
Naquela noite fomos dormir cedo. Era domingo e no dia seguinte as coisas iriam continuar se repetindo indefinidamente.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Acordei pela manhã e encontrei Juliana se quebrando pra empacotar um presente:
- Pra quem é isso?
-Pra um menino da minha sala.
-Ele tá de aniversário?
-Não.
-Mas pra quê então tu vai dar um presente pra ele?
-Não é só pra ele. Brincaremos juntos.
Aquilo não dava pra se chamar de presente. O papel estava enrolado e amarrotado envolta da caixa e tinha figuras estranhas. E podia apostar que o conteúdo daquele pacote era duvidoso (um monstro? uma bomba? algo doce?). Era evidente que ela não fazia a mínima idéia do que estava fazendo.
Por alguma razão, aquela conversa começou a me deixar tonta. Deitei no sofá e estiquei as pernas pro alto.
Não demorou muito para a “miss fita-adesiva” começar a correr gritando em volta da mesa com um pedaço de fita vermelha na mão. Queria mandar a pirralha calar a boca, mas me controlei (tem dias que não dá pra agüentar...).
Era sábado e eu estava em casa esperando. Esperando pelo quê? Eu também não fazia a mínima idéia do que estava fazendo. Levantei e me olhei no espelho. Meu cabelo estava sujo e desgrenhado. Eu ainda estava de pijamas. E uma meia listrada e outra amarela com certeza não são um par. Reparei nos meus olhos castanhos. Pequeninos. E lá no fundo vi que algo brilhava. E lá de dentro uma estranha, com os olhos fixos em mim, tentava algum tipo de apresentação. Acenou timidamente e ameaçou um sorriso. Talvez ela pudesse me dizer o caminho. “Quem eu sou? O que estou fazendo? Escrever pra quê? Qual é o sentido?”. Penso que talvez escrever essas coisas seja uma forma assustadora de exposição-queimação-de-filme. E de onde surge a inspiração afinal? Talvez eu tenha uma ótima memória e seja um plágio ambulante. Eu poderia soltar um bando de palavrinhas bonitas e fazer de conta que eu sou inteligente. Mas posar de doida sempre foi mais divertido. Eu deveria estar preocupada em mostrar o meu melhor. Eu deveria estar me preocupando se alguém vai gostar. Por que perco meu tempo com isso? (eu pagaria um psicólogo pra me responder, mas Juliana não gosta deles).
Minhas dúvidas assustaram a garota no espelho e ela escapou. E até hoje não sei quem ela é. Entendo que ela não queira se expor. O que eu via era um pacote feio e de conteúdo duvidoso.
Me desvencilhei daquela imagem sem saber o que eu sentia por ela. Me sentia saindo de outro mundo e voltando ao meu. Onde o céu era nublado e agora chovia.
Não me espantaria se no futuro eu descobrisse que sou eu aquela estranha, e não esse ser superficial, coberto de maquiagem.
No fundo da sala, Juliana continuava entretida com alguma espécie de sabotagem.

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Juliana ganhou um par de galochinhas vermelhas que ela gosta muito. Quando perguntei o por que ela disse: “porque sim”. Sábia resposta. Ninguém sabe exatamente por que gosta de alguma coisa. Ela pensou um pouco mais, e respondeu: “porque elas me levam aos lugares”. Achei um amor a ingenuidade daquela resposta e só pude pensar que ela se referia a seus pés. Eu já tinha bebido umas três taças de vinho e comecei a viajar num par de tênis cor-de-rosa que eu tenho. Ele está velho e gasto. Não lembro quando eu o lavei pela ultima vez. Tem algumas partes descolando. Ele me esquenta, me conforta. E eu piso nele. Pensei que se sapatos tem sentimentos ele deve estar se sentindo muito deprimido. Ele dá a vida por mim eu nunca fiz nada por ele. Um amor não correspondido!

Percebi que tenho vários sapatos no armário. E provavelmente sou o sapato de alguém.

Usamos as pessoas que nos querem bem e não percebemos. Ou até percebemos, mas por alguma razão achamos que elas se sentem felizes com isso. Algumas vezes temos a tendência de gostar das pessoas pelo que elas fazem por nós e não por elas serem quem são. Tentamos mudar as pessoas. Queremos que elas sejam o nosso número, e com isso as sufocamos. Tratamos as pessoas como seres inanimados, como se não tivessem vida própria além de servir aos nossos desejos.

Nunca nos desculpamos por isso. E nem vamos, não é mesmo?

O que eles diriam se tivessem voz! Se debruçariam, chorariam e lágrimas correriam pelos cadarços? Ou simplesmente permaneceriam calados por que nos amam incondicionalmente?

Enquanto eu lavava meu tênis rosa pela terceira vez, Juliana parada na porta da lavanderia repetia: “sapatos, são apenas sapatos”.

terça-feira, 1 de maio de 2007

Juliana me pediu pra publicar esta lista aqui...

Medos da semana:

Formigas
Meninos
Balões de gás (?)


Tudo bem. Formigas eu concordo plenamente. São pequenininhas e andam em grupos (a união faz a força!). Meninos é compreensível, devido a idade da minha jovem (mas não menos importante) colaboradora, que chegou esses dias com um halls emaranhado no cabelo (foi mal divulgar isso, mas não pude perder a oportunidade).
Agora, balões de gás?

Lembrei daqueles balões que eram vendidos nos parques e feiras lá por 89...
(a idade um dia chega pra todo mundo).

Lembro da primeira vez que meu pai comprou um pra mim: “segura firme, se não ele voa alto, alto e eu não vou conseguir pegar”.

O balão era prateado, com uns desenhos coloridos em rosa e azul. E eu soltei, é claro.

A emoção de se arriscar só pra ver o que acontece. É a graça da vida. Não temos controle sobre tudo, e é isso que torna a vida emocionante.

Devo ter chorado durante uns dez minutos. E duas horas depois, eu já tinha outro balão, amarrado no dedinho ( outra coisa maravilhosa é que aprendemos com nossos erros).

Cheguei em casa fascinada com o meu novo amigo. Nos divertimos durante horas, extasiados. Até ele cair, deitado no chão, murcho.

A paixão acabou, e no final de semana seguinte o que eu queria mesmo era um algodão doce (do cor-de-rosa, não do amarelo).

Na verdade, balão, algodão doce ou menino, a alegria que proporcionam é mesma (de acordo com a idade e opção sexual de cada um é claro).

O que me faz concluir que temos uma tendência quase animal de buscar a felicidade, e as coisas ou pessoas são substituíveis.

O amor acaba, renasce, se renova. Caímos no chão deprimidos e murchos, mas logo aparece alguém para nos encher de ar de novo. E ficamos flutuando no teto de nosso quarto, com o um sorriso de orelha a orelha como se respirássemos gás hélio.

E essa é a vida. E temer a vida é como ter medo de algo estúpido como formigas.