sexta-feira, 11 de maio de 2007

Acordei pela manhã e encontrei Juliana se quebrando pra empacotar um presente:
- Pra quem é isso?
-Pra um menino da minha sala.
-Ele tá de aniversário?
-Não.
-Mas pra quê então tu vai dar um presente pra ele?
-Não é só pra ele. Brincaremos juntos.
Aquilo não dava pra se chamar de presente. O papel estava enrolado e amarrotado envolta da caixa e tinha figuras estranhas. E podia apostar que o conteúdo daquele pacote era duvidoso (um monstro? uma bomba? algo doce?). Era evidente que ela não fazia a mínima idéia do que estava fazendo.
Por alguma razão, aquela conversa começou a me deixar tonta. Deitei no sofá e estiquei as pernas pro alto.
Não demorou muito para a “miss fita-adesiva” começar a correr gritando em volta da mesa com um pedaço de fita vermelha na mão. Queria mandar a pirralha calar a boca, mas me controlei (tem dias que não dá pra agüentar...).
Era sábado e eu estava em casa esperando. Esperando pelo quê? Eu também não fazia a mínima idéia do que estava fazendo. Levantei e me olhei no espelho. Meu cabelo estava sujo e desgrenhado. Eu ainda estava de pijamas. E uma meia listrada e outra amarela com certeza não são um par. Reparei nos meus olhos castanhos. Pequeninos. E lá no fundo vi que algo brilhava. E lá de dentro uma estranha, com os olhos fixos em mim, tentava algum tipo de apresentação. Acenou timidamente e ameaçou um sorriso. Talvez ela pudesse me dizer o caminho. “Quem eu sou? O que estou fazendo? Escrever pra quê? Qual é o sentido?”. Penso que talvez escrever essas coisas seja uma forma assustadora de exposição-queimação-de-filme. E de onde surge a inspiração afinal? Talvez eu tenha uma ótima memória e seja um plágio ambulante. Eu poderia soltar um bando de palavrinhas bonitas e fazer de conta que eu sou inteligente. Mas posar de doida sempre foi mais divertido. Eu deveria estar preocupada em mostrar o meu melhor. Eu deveria estar me preocupando se alguém vai gostar. Por que perco meu tempo com isso? (eu pagaria um psicólogo pra me responder, mas Juliana não gosta deles).
Minhas dúvidas assustaram a garota no espelho e ela escapou. E até hoje não sei quem ela é. Entendo que ela não queira se expor. O que eu via era um pacote feio e de conteúdo duvidoso.
Me desvencilhei daquela imagem sem saber o que eu sentia por ela. Me sentia saindo de outro mundo e voltando ao meu. Onde o céu era nublado e agora chovia.
Não me espantaria se no futuro eu descobrisse que sou eu aquela estranha, e não esse ser superficial, coberto de maquiagem.
No fundo da sala, Juliana continuava entretida com alguma espécie de sabotagem.

Um comentário:

dantezco disse...

Por que uma meia listrada e uma meia amarela não fazem um par?