sexta-feira, 4 de maio de 2007

Juliana ganhou um par de galochinhas vermelhas que ela gosta muito. Quando perguntei o por que ela disse: “porque sim”. Sábia resposta. Ninguém sabe exatamente por que gosta de alguma coisa. Ela pensou um pouco mais, e respondeu: “porque elas me levam aos lugares”. Achei um amor a ingenuidade daquela resposta e só pude pensar que ela se referia a seus pés. Eu já tinha bebido umas três taças de vinho e comecei a viajar num par de tênis cor-de-rosa que eu tenho. Ele está velho e gasto. Não lembro quando eu o lavei pela ultima vez. Tem algumas partes descolando. Ele me esquenta, me conforta. E eu piso nele. Pensei que se sapatos tem sentimentos ele deve estar se sentindo muito deprimido. Ele dá a vida por mim eu nunca fiz nada por ele. Um amor não correspondido!

Percebi que tenho vários sapatos no armário. E provavelmente sou o sapato de alguém.

Usamos as pessoas que nos querem bem e não percebemos. Ou até percebemos, mas por alguma razão achamos que elas se sentem felizes com isso. Algumas vezes temos a tendência de gostar das pessoas pelo que elas fazem por nós e não por elas serem quem são. Tentamos mudar as pessoas. Queremos que elas sejam o nosso número, e com isso as sufocamos. Tratamos as pessoas como seres inanimados, como se não tivessem vida própria além de servir aos nossos desejos.

Nunca nos desculpamos por isso. E nem vamos, não é mesmo?

O que eles diriam se tivessem voz! Se debruçariam, chorariam e lágrimas correriam pelos cadarços? Ou simplesmente permaneceriam calados por que nos amam incondicionalmente?

Enquanto eu lavava meu tênis rosa pela terceira vez, Juliana parada na porta da lavanderia repetia: “sapatos, são apenas sapatos”.

4 comentários:

matios[y7u] disse...

é uma visão bem pessimista da humanidade, porém com bastante realismo

muitas vezes somos e temos um objeto que os papeis acabam se confundindo e misturando e nem notamos

muito bom o texto

dantezco disse...

Sabe que eu encrencava com isso tb? Até hoje eu sou bem fechadão por isso, mas aí uma vez alguém me deu um tapa que eu tava precisando: "somos amigos, você pode dividir seu peso comigo". De vez em quando as pessoas gostam de ser usadas.

É daí que eu tirei o meu "disponha, mas não abuse". É uma boa coisa pra se dizer =)

Daniel Gruber disse...

Mô....tu escreve mt bem
e de forma simples sobre coisas relevantes

Gostei de "ter medo da vida é como ter medo de uma coisa boba como formigas", no post anterior

e nesse, é a mais pura verdade...esperamos sempre q o outro seja nosso sapato, e do nosso número....

a mente humana é terrível, e o homem pós-moderno é pior ainda

Guilherme disse...

Mo..... incrível é que isso é a mais pura verdade.
Mas tb não vamos esquecer que se fazemos algumas pessoas de sapato, tem pessoas que fazem à gente de sapato, na verdade a vida se ajusta.
Por isso na verdade devemos ter medo das formigas os detalhes da vida que podem nos derrubar.