domingo, 13 de maio de 2007

Sem o mínimo de empolgação eu digitava um trabalho para a faculdade, quando senti alguém parado atrás de mim, batendo o pezinho no chão, impaciente. Eu decidi ignorar. Estava feliz demais e sem paciência para ela naquele momento.
Horas passaram e eu estava distraída, quando pelo canto do olho vi o vulto de uma coisa pequena cruzando o corredor.
Era minha colaboradora. Usava seu vestidinho favorito e sobre o ombro tinha um cabo de vassoura com uma trouxinha de roupas amarrada na ponta. E na ponta dos pés, tentava abrir a porta para sair da casa.
-Vou abandonar tudo!
-Como assim vai abandonar tudo?
-Estou indo embora.
-Embora pra onde? Não gosta mais de mim?
-Gosto. Claro que gosto, sou sua amiga.
-Mas então qual é o problema?
-Bom, é que não quero crescer e ser como você. (!!!)
Nossa! Aquilo doeu! Foi como se ela tivesse subido num banquinho e me dado um tapa.
Fiquei em silêncio por alguns minutos. Não estava mais acostumada com a sinceridade infantil.
-Quero ser livre.
-Mas eu sou livre! Sou maior de idade, meus pais não mandam mais em mim, tomo minhas próprias decisões, posso sair, posso namorar...
A pequena torceu o nariz. Ficou me olhando de cima a baixo, ponderando o que ia dizer, quando apontou o dedinho para os meus pés.
-O que é? Meus sapatos?
- Você não precisava deles...
-Claro que precisava! Eles combinam com este casaco!
-E ainda nem terminou de pagar...
-Mas tinha 10% de desconto!
Depois dessa, Juliana já girava a chave...
-Calma aí. Só por isso?
-Não é só isso. Já reparou como você sempre anda estressada? Acorda de manhã, vai para o trabalho. Quando volta pra casa já tem que sair de novo para a faculdade. Quando chega, tem quinze minutos para comer e seis horas para dormir. Mal tem tempo pra você mesma. E alguma vez já se perguntou se gosta disso que está fazendo?
-...
Retomei o fôlego e tentei explicar a ela a realidade que ainda é muito jovem pra entender.
-Adultos não se perguntam essas coisas. Trabalhamos e ganhamos pouco para pagar a faculdade e as quinquilharias baratas que compramos, para um dia arrumar um emprego melhor, para ganhar mais, para poder comprar quinquilharias mais caras. Depois casamos, temos filhos, netos, talvez bisnetos e daí morremos. Alguns de nós são felizes.
-É por isso que estou indo embora. Não quero essa vida pra mim. Não quero ser uma velha frustrada. Vou pra algum lugar, pra praia, pro campo, tanto faz. Vou começar com uma plantação de alface. Depois mais pessoas se juntarão a mim e poderemos cultivar outras coisas. Aí seremos uma comunidade e você poderá se juntar a nós. Você odeia o seu curso mesmo.
-Eu gosto muito do meu curso!
Ela saiu pela porta e eu atrás dela. Fiquei muda sem saber o que dizer. Juliana abriu o portão e olhou ao redor como se encarasse os rostos de pessoas imaginárias de quem estivesse se despedindo.
Tempo se passou e Juliana continuava sentadinha na calçada. A verdade é que ela não tinha para onde ir. Fui me juntar a ela como quem diz “eu sei, eu sei”, depois entramos e eu preparei pra ela um chocolate quente.
Naquela noite fomos dormir cedo. Era domingo e no dia seguinte as coisas iriam continuar se repetindo indefinidamente.

Um comentário:

dantezco disse...

Nos prendemos pra conseguir mais liberdade.

É coisa que só podia sair de uma mente humana mesmo.

Ô, tou virando teu fã.