domingo, 3 de junho de 2007

Acordei em meu quarto, debaixo de cinco cobertores e ainda vestindo calça jeans. Coloquei o nariz pra fora dos cobertores como forma de investigação. “Não acredito que ainda estamos no inverno”, pensei. Parecia ter passado meses desde meu último contato com o mundo. Eu tentava criar coragem para levantar e enfrentar a vida e o frio. Dizem que faz mal alimentar expectativas antes de dormir. Ou seria o estômago?

Comecei a ter aquela estranha sensação de que era o dia do aniversário de alguém. E para eu ter esquecido, provavelmente devia ser alguém importante.
Fiquei imaginando o que essa pessoa deve ter pensado quando decidiu nascer: “Grande idéia! Vou pra um lugar cheio de gente sem fazer a mínima idéia do que fazer ou de quem eu sou e entrar na dança: tristeza, euforia, tristeza, euforia...vazio!”

Será que recebeu algum tipo de treinamento? Será que alguém pediu seu consentimento?

Como todos nós, ela nasceu como uma folha em branco. Seus pais fizeram os primeiros rabiscos. Desenharam o que sabiam de melhor. Depois foi conhecendo outras pessoas que também deixaram suas impressões. Hoje ela é uma bela obra de arte, cheia de lembranças e pequenos traumas. Pronta pra pendurar na parede! Se unirá a um lindo quadro e terá outros três pequenos quadrinhos. Uma vernissage!

Se a vida não faz sentido, também não faz sentido levantar cedo no sábado de manhã.

Estava delirando de sono.

Afundei a cabeça no travesseiro novamente e me espalhei pela cama, esticando braços e pernas. Lamentavelmente percebi que estava só e em minha companhia. Acho que não dormi muito bem, ou então sonhei com a rachadura na parede a noite toda. Estava cansada. Meus olhos ficaram pesados até ficarem grudadinhos, então adormeci de novo.

Sonhei que estava em um grande salão cheio de gente. Todos se moviam em uma espécie de dança muito animada, quando a música parou e todos aqueles olhinhos dançantes se voltaram para mim. Uma moça se aproximou. Acho que era a anfitriã, pois me convidou para que me juntasse a eles.

-Mas não sei dançar.
-A vida te ensinará!
Ela disse.

Dei os meus primeiros passos pela pista, receosa. Dois para direita, dois para esquerda...e ...girar!
Em círculos, os pés deslizavam pelo chão e eu via rostos conhecidos. Você, você e você também estavam lá. Que grande coincidência!

Aí então entendi.

Tristeza, quando ninguém te tira para dançar. Euforia, ao rodopiar e rodopiar nos olhos de alguém. Vazio, ao estar sentada de novo na cadeira com as mãozinhas sobre o colo como uma boa moça.

Alguns têm talento, outros como eu precisam usar suas melhores sapatilhas.
É frustrante, mas não vou desistir. Sou uma aluna ansiosa e tenho a maldita felicidade como meta.

Percebi que não há nada de errado com a minha vida. Na verdade acho que agora ela está como deveria estar. Embora não me sentisse a vontade com a música que estava tocando.

Atravessei aquele salão de sonho como se ele fosse meu. Parei em frente ao toca-discos. Nem mesmo me importei com o olhar de reprovação dos dançarinos. A música parou. Segurei o disco de vinil com as duas mãos e procurei algum nome que me agradasse.
-Este aqui!
Juliana o surrupiava da minha mão com os seus dedinhos.
- Este vai dançar com você!
Coloquei o disco para tocar e planejava pousar a agulha em seu nome quando fui interrompida.

-Este aqui! Este aqui!

Acordei com os gritos incessantes de Juliana. Era dela o aniversário, afinal. Ela estava eufórica e segurava um catalogo de compras. E me implorava que comprasse para ela um animal em extinção.

Passei o resto da manhã enchendo balões. E a cada sopro eu lembrava do sonho que tive. Ele me perturbou. Pessoas de todos os lugares vieram para o aniversário da minha pequena, tamanha a sua popularidade. Em meio as palmas, e o bolo sem velas, a lembrança dele ainda me entristecia. Mas à noite, ao tirar meu chapéu de festa, ele já será parte do passado, e eu o esquecerei.

2 comentários:

dantezcoman disse...

O melhor. Ponto. Sem discussão, e nem adianta reclamar.

Tenho pena do próximo post. Tomara que não seja comparado com esse, seria uma vergonhazinha^^

Sra. Gabriela Sindromelica disse...

Teus textos são ótimos...
São profundos e resos. Bom demais te ler, guria!
Abraço!