segunda-feira, 11 de junho de 2007


De tanto sentar ao meu lado enquanto eu escrevo, Juliana aprendeu a digitar algumas palavrinhas. E que palavrinhas feias essas que ela digitava agora. Não sei dizer ao certo quais palavras eram, pois ela teve o cuidado de escrever no seu idioma. Idioma esse que ela mesma inventou, coisa que só quem não existe pode se dar ao luxo de fazer e ainda manter a credibilidade.

Era nada menos do que uma maneira de me ignorar. Não estamos nos falando no momento, por uma questão de sintonia. Acho que ela está ocupada com outra pessoa mais interessante do que eu.

Ela estava alegre. Não sei como alguém tão pequeno consegue lidar com tanta felicidade. Eu no lugar dela me atrapalharia e acabaria estragando tudo. Podia-se ouvir risadinhas, gritinhos de sucesso, isso quando ela não passava correndo de um lado para o outro ou ensaiava os passos de algum tipo de dança de comemoração.

Eu tomava meu café da manhã. Café com leite, pão com margarina e cuca de chocolate. É a melhor refeição do dia pra mim.

Eu pensaria em cortar meus pulsos com a faquinha suja de margarina se não estivesse tão desanimada. Não que eu estivesse triste. A questão era que eu não estava nada. E isso me incomodava.

Ao menos era um daqueles dias em que eu me sentia bonita. A tinta da noite anterior escorria do meu rosto, o preto dos olhos se misturava com o rosa dos lábios e transformava minha cara numa tela a óleo rosa-escuro-fluorescente, graças ao pó brilhoso que peguei emprestado da minha avó. Meu cabelo, cada dia mais loiro, estava sujo, mas armado da escova que eu fiz três dias antes.

Eu parecia uma daquelas bonecas de cera. Não me importaria de ser assim para sempre, superficial e sem sentimentos. Não precisaria pensar, dizer ou sentir nada, apenas ser a minha representação. Uma imagem e nada mais. E de quando em quando alguém teria a delicadeza de me mover de um lado para o outro da vitrine e tirar as teias de aranha por consideração.

Eu não teria um cérebro e isso com certeza, facilitaria a vida de algum suposto pretendente meu.

E eu também não teria ouvidos para escutar as suas satisfações mentirosas quando por educação ele achasse que as devesse dar.

Ambos sairíamos ganhando.

E quando eu morresse, ao ser aberta na hora da autópsia, o diagnóstico do médico legista diria: “Ela era um saco vazio”. Eu estava entediada, então me agarrava a qualquer tipo de pensamento melancólico como forma de entretenimento.

Silêncio na sala. Juliana estava ocupada com uma caixa de lápis de cor. E numa folha de cartolina pintava um coração de vermelho. Ela fazia um cartão para o dia dos namorados. Estava explicado o mistério daquela alegria toda. Datas comerciais deixam a minha pequena nas nuvens.

Foi um fato novo para mim. Juliana tinha um namorado imaginário. E apressadamente ela correu até a caixinha do correio. E mesmo passada a data, por dias ela esperou e esperou em vão pelo homem azul e amarelo.

Sentadinha no meu colo ela balançava a cabeça com pesar:
-Nunca ninguém me amou tão desamorosamente.

3 comentários:

-Sibyl Vane- disse...


"Ninguém nunca me amou tão desamorosamente"

Fantástico!!
PObre Juliana, sentiu uma das crueldades de se estar vivo e com cérebro.

Daniel Gruber disse...

Já disse que esse foi um dos melhores.
concordo com a Sibyl: o final é fantástico.
Somente um bando de frustrados como nós teriam blogs tão interessantes.

Bjus.

dantezcoman disse...

Olha, eu acho que sofrer é o preço que a gente paga por saber algumas coisas. E quanto mais vc sabe, mais vc paga.

De vez em quando eu penso se vale a pena, mas eu sempre sei que vale.