domingo, 29 de julho de 2007

Não tenho visto Juliana ultimamente. Ela anda ocupada, pois foi convidada para fazer um curso avançado, desses em que pessoas como eu não passariam nem na primeira etapa. Hoje é segunda-feira, dia da aula de “coisas maravilhosas - modulo I”. Fui abandonada pelo imaginário e odeio ter que me ocupar com coisas reais.

Ela me deixou sozinha e sem a ajuda dela não consigo escrever nada que tenha nexo.
Passei dias e dias em tremenda ansiedade. A inspiração se foi me deixando num silêncio profundo. Não conseguir escrever chega a ser doloroso de tão insuportável. Eu tenho uma vontade grande de escrever, no entanto os dedos não se movem, as idéias não nascem...

A abstinência durou dias, até esta tarde.

Escuto a campainha tocar. Atendo, e que surpresa! É um jovem estranho!

Ele usava um chapéu preto, esquisito. Seus cabelos loiros definitivamente pediam um corte. Ele entrou sem ser convidado. Eu me sentei no sofá e ele sentou ao meu lado, no chão. Eu não conseguia tirar os olhos das linhas do seu rosto. Nem percebi que ele segurava um pacote.
-Olá, sou amigo de Juliana, ela me pediu que lhe entregasse isto.
Eu segurei o embrulho com as minhas mãos e percebi que embora pequeno, era muito pesado.
-Ela queria que você o tivesse antes que ela voltasse.
Ele indicou com o dedo. Havia um bilhetinho colado abaixo do pacote.

“Isso que você tem agora é uma máquina de ler pensamentos a manivela. Acho que pode ser útil com o seu problema com garotos”.
Me senti envergonhada pois pude imaginar que ele o havia lido no caminho e devia estar sentindo muita pena de mim.
Por fim ele disse:
-Usar isso ou não depende de você.
Ainda antes de ir se ofereceu para me ajudar a escrever. Talvez em outra oportunidade, eu disse. Mas mesmo assim, me deixou o que parecia até um poema:

“Linda como o vento foi a noite
E bela como a manhã suas estrelas
Brilhavam em seu olhar
Ah meu amor que saudade
Do balançar dos galhos das árvores
Acima de nós
Como o céu
Só que um céu mais próximo
Um em que possamos tocar”

Fechei a porta pensando em Juliana e pensando se queria aceitar o presente.

sábado, 14 de julho de 2007

Acho que sonhei com isto. Não esta noite, outra noite. Jogávamos um jogo. Eu perdi.

E você me dava um beijo de consolação, sensação de lábios anestesiados, que atordoante!

Adormeço no sonho. Acordo e adormeço, tenho outro sonho. Acordo e vou correndo te contar o sonho do meu sonho, só pra ver se consigo levantar.

E cantarolo, e pulo, e danço, hiperativa pela noite. Não consigo desligar.

Um movimento inconsciente agarra o travesseiro procurando o seu abraço.
(o seu abraço, o dele ou o daquele, são todos iguais, eu sou capaz de amar todo o mundo e qualquer um).

Uma porção de anjos agora dançam uma dança de roda ao redor de mim.

Vejam todos eles, são todos eles meus amantes!

Acordo no meio da madrugada sentada em meio as flores no meio do jardim:
-Morgana, o que você está fazendo?

domingo, 8 de julho de 2007


Eu estava delirando em febre, mas mesmo assim me preparava para sair. Sai do banho e enrolei uma toalha ao redor do peito como se fosse uma atadura.
Juliana estava sentada na minha frente. Ela me imitava. Uma das pernas dobrada sobre o joelho e a mão direita puxando o cabelo da raiz até a ponta, só que delicadamente. Me observava com atenção. Não sei o que tentava aprender. Acho que na verdade tentava me ensinar como as outras pessoas me viam. Ela copiava meus trejeitos tão bem que por um momento pensei ver sentada ali minha miniatura.

Ela é uma menina pequena e magra. Tem o porte de uma criança de quatro anos, mas a curiosidade de uma de seis. Se esconde muito bem devido ao seu tamanho e é impossível alcança-la quando corre. Suas mãos são duas anarquistazinhas. Ela considera seu corpo um ótimo recipiente por causa da sua praticidade, principalmente quando o veste com pijamas.

Juliana é maravilhosa de tão fantástica. Sua luz sempre me ofuscou.
Ela tem uma vontade de viver já e desesperadamente. Contagiante. Enquanto eu não sei dançar e fotografo muito mal. Enquanto e sou sócia da auto-depreciação e da decepção sou a maior consumidora.

Calcei os sapatos e sai. Tranquei a porta com muito cuidado para não acordar ninguém. Eu não me sentia muito bem. Achei que ia vomitar mas para minha surpresa eram lagrimas. Muitas e muitas e soluçantes.

Cansada de esperar, sento no cordão da calçada e Juliana vem me perguntar:
-Nhami! É bolo de que?