domingo, 12 de agosto de 2007

Há dias Juliana construía uma gaiola para pegar passarinhos.
Era um dia ensolarado, e ela preparava a armadilha no jardim. Ela espalhava pedacinhos de pão em uma linha reta desde a calçada, passando pelo portão, até o interior da gaiolinha, da qual pendia um chocolate e algum outro doce.
Ela observava de longe e sorria com satisfação, “tinha feito um bom trabalho”.

Ela protegia o rosto com a mãozinha e olhava pro céu esperando por algo.

Me ajoelhei na frente dela para ficar do seu tamanho e indaguei o que ela queria com aquilo. Ela disse: “não é para mim é para você...”

-Estou tentando pegar o garoto-inspiração!
(O garoto-inspiração é uma espécie de lenda no lugar de onde Juliana veio).

-Você vai escrever como nunca e não vai precisar de mais nada. A inspiração vai te preencher de tal forma que não vai precisar nem mesmo se alimentar.

Não acreditei que aquilo pudesse ser real, mas com todas as situações que pude experimentar depois que conheci Juliana, não há nada que eu possa duvidar. E então esperei.

Já era madrugada e adormecemos. Acordei com um som vindo da gaiola. Minhas costas estavam doloridas, pois eu havia adormecido encostada no muro. Juliana estava deitada no meu colo. Tentei me desvencilhar dela de maneira que não a acordasse.

Preso na gaiola, vi um garoto nu, muito pálido e com cabelos cor de fuligem.

Ele olhava ao redor, com curiosidade. As flores, as árvores, até mesmo o meu cachorro deitado na soleira da porta, tudo para ele era fascinante. Eu esperava que ele olhasse pra mim. Ele olhava em minha direção, mas seu olhar me atravessava como se eu não estivesse ali.

-Você pode vê-lo, mas ele não pode ver você.

Ele era belo e portador de um vazio profundo. Próxima dele eu senti todos os tipos de coisas. Eram sentimentos mágicos aos quais os homens não conseguiram nomear. Não consegui resistir e o toquei. Ele repeliu o meu toque e se afastou assustado.

-Agora ele é seu. Vai inspirá-la, mas não vai ler nada do que você escrever. Tenha cuidado, ele pode feri-la.

Minhas mãos tatearam no escuro, desesperadas por uma caneta. Eu também não tinha folhas. Encontrei a caixinha de giz de Juliana e comecei a escrever ali mesmo na calçada. A necessidade de escrever era mais forte do que eu.

Poemas, versinhos e piadas, brilhavam em rosa, amarelo e azul, fluorescentes pela luz da noite. Escrevi até cair no chão, extasiada.

Depois que o conheci, senti a rejeição e com ela a felicidade que não lembro ter sentido antes.

4 comentários:

Wagneto disse...

Anunciação ao poeta - Adélia Prado

Ave, ávido.
Ave, fome incansável e boca enorme, come.
Da parte do Altíssimo te concedo
que não descansarás e tudo te ferirá de morte
o lixo, a catedral e forma das mãos.
Ave, cheia de dor.
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"Toda biografia é ficcional e toda ficção é auto biográfica"

Poema e frase da aula de poesia brasileira, achei que dava para por aqui. Obrigado por adicionar. Bjos para as duas, hehehehe.

dantezcoman disse...

Não gostei. Pobre garoto-inspiração, ficar preso assim =(

Não seja malvada, deixe que ele saia por aí, e seja amiga dele. Vai ver como as idéias melhoram =)

O ANTAGONISTA disse...

Muito, mas muito sensível mesmo, parabéns.
É sempre uma surpresa agradabilíssima visitar este blog.

Valeu.

Me chamam de Rafaela disse...

Moça da imaginação de Juliana, que prazer passar por aq e ter na minha noite a paz que uma adolescecente precisa.

Escuta, moça da imaginação de Juliana, se o Vínicuis é "o poeta da paixão", vc é a poeta do sutil...


P.S. Vou indicar seu blog no meu. Se puder dar uma passada por lá, vou ficar feliz.