sábado, 22 de setembro de 2007

Eu lembro que havia um copo e de que dele eu bebi. E lembro que dancei e dancei até a sola das minhas sandálias vermelhas gastarem, e então caí. Caí num gramado verde e macio e que cheirava a orvalho. O frio da madrugada se estendia pela minha pele como um casaco gelado. Eu fiquei deitada lá olhando as estrelas e pensando que talvez eu tivesse bebido muitas cervejas. Eu não sabia onde estava, não sabia quem eu era e tentava me encontrar quando achei Juliana. No lugar das estrelas agora havia um rostinho miúdo de menina, uma menina muito pequena. Ela me estendeu a mão para que eu a pegasse. E não sei com que força me levantou, mas agora eu estava de pé. Caminhamos em direção a um bosque. Nunca tinha percebido ele ali. Estranhei um mato entre tantos prédios e por um momento o estranho pensamento de que Juliana o tivesse criado me passou pela cabeça. Mas logo o pensamento se foi e eu queria outra bebida. Ela segurava a minha mão e caminhávamos entre as árvores. Ela me fazia perguntas estranhas: “Como você está na faculdade? E o trabalho? E a vida? O que você esta fazendo da sua vida? Você sabe o que é isso, não? Vida? Cada dia que passa é um dia de vida e é um dia de vida desperdiçado se você não o viver bem. Por que você não olha a sua volta?”

Eu tentei dizer pra ela que eu olhava tudo ao meu redor. Mas logo tudo escurece e meus olhos se fecham bem fechadinhos. Eles se viram para dentro de mim e me encaram profundamente. E assim eles ficam, pois a visão do mundo interior é muito mais interessante. Fico assim durante dias e não consigo me desligar.

Juliana faz noc noc na minha testa. E eu abro minha mente pro mundo, como quem acorda de um cochilo. E faço cara de criança que não quer levantar para ir para aula: “me deixa mais um pouco”.

Ela entende. Ela sabe que é difícil sair, e ver a luz e ver o mundo te chamando a ser e interpretar um papel. Meu corpo é a minha fantasia, e eu convenço todo mundo.

Eu sou um monstro! Qual será o tamanho da minha alma? Talvez em minha totalidade eu só meça um centímetro! Vê minha respiração? Lá se vai um pouco de mim. Você consegue me agarrar com suas mãos. Mas já acabou.

Eu olho para a mesa a minha frente. Eu vejo o sofá eu vejo as almofadas. E pergunto a mim mesma se estão mesmo ali. Acho que se eles estão aqui, eles existem e se existem, certamente de alguma maneira eles vivem. Eles me servem e penso em seus sentimentos e em como se sentem vivendo para me servir. Queria lhes aliviar o sofrimento. Mas o que posso fazer se é esse o seu propósito? Eles parecem tristes. E eu me sinto sozinha no meio deles.

Penso como sou feliz sendo pessoa, como deve ser ruim a vida de um sofá ou de uma escrivaninha...

-Então mexa-se!! - Disse minha pequena, me acordando do meu devaneio. - Caminhe e caminhe! Não importa para onde! Na vida tudo o que se tem de fazer é andar e andar! Siga a estrada! E cuide para não tropeçar no caminho! Terá dias de sol e dias de chuva! Mas você continuará , pois não tem nada melhor pra fazer!

Ela me deu um empurrão tão forte com a mãozinha pequena que achei que iria cair do salto.

Eu continuei andando pelo que parecia ser um trilho. O sol nascia, o dia ia clareando, quando no final do trajeto encontrei o pé da minha cama. Subi nela e me deixei cair entre os lençóis. A luz já entrava pela janela do meu quarto e o dia prometia ser quente.

Senti meu corpo relaxado e fechei os olhos. Não sei se eu adormeci, mas acho que não faz diferença.

Por mais que eu tente, eu nunca deixarei de existir.

sábado, 15 de setembro de 2007

Juliana estava sentada à mesa e com descaso eu preparava algo para o jantar.
Eu misturava todos os ingredientes e esperava que eles combinassem em algum tom pastel ou talvez em algum tom vivo como um laranja avermelhado, pois aí sim estaria no ponto. Ao menos era o que indicava no livro de receitas que Juliana me emprestou.

Depois de pronto, o prato cor de laranja mais parecia uma sopa ou alguma espécie de caldo, e eu desconfiava pelo gosto terrível que a qualquer momento alguma criatura saltasse dali.

Eu olhava para Juliana saboreando o prato e esperava dela alguma espécie de reprovação, mas ela olhou nos meus olhos e disse: “perfeito”.
-Perfeito? Mas ficou uma droga!

Ela continuava comendo e comecei a pensar que talvez o problema fosse comigo.
Talvez eu estivesse com algum problema de paladar ou algo parecido.

Fui até a cozinha conferir os ingredientes que eu havia utilizado. Juliana os havia comprado numa feirinha que acontece uma vez ao ano, sempre na primeira curva de algum lugar fantástico e imaginário. Sua verdadeira localização eu desconheço.

Reuni uma ao lado da outra as embalagens multi-coloridas, e como num instinto fui enfileirando-as e mudando a ordem até que curiosamente percebi que em cada uma delas havia uma sílaba. E agora em letras garrafais eu lia:
“Qual é a causa da sua indigestão?”

Juliana cochilava no sofá com satisfação e eu sentia meu estomago embrulhado.
Nunca senti algo tão perturbador. Só no que eu conseguia pensar era em meu estômago e na dor que eu sentia. Todo o resto havia sido esquecido e silenciado.

Eu andava de um lado para outro, até que comecei a sentir que algo estava acontecendo comigo. Senti que algo subia pela minha garganta, similar ao refluxo de que sofrem alguns bebês.

E para surpresa de todos, saltou da minha boca um bilhete.
-Acho que chegou uma carta para você.
Dizia Juliana se espreguiçando, quando eu mesma já havia me esquecido da existência dela.

Li com atenção. Nunca imaginei que eu tinha coisas tão duras e verdadeiras para dizer a mim mesma. E foi como se alguém tivesse me sacudido, me dado uns tapas e depois me abraçado.

Dobrei a carta e guardei com cuidado o que a parte que vive em mim havia escrito. E no final ela assinou:
“Com amor, A louca que governa a sua vida”.

sábado, 1 de setembro de 2007

-Você ganhou! Ganhou!
Juliana vinha correndo, e tinha nas mãos o que parecia ser um bilhete de loteria.
-Que diabos, me deixa ver o que eu ganhei!
No bilhete, abaixo dos números sorteados dizia: “ Uma vida completamente alucinante”.
-Você só pode estar brincando, quem é que precisa disso.
Tudo o que eu queria era paz e tranqüilidade. E uma rede, também não viria mal.
Quando Juliana some por alguns dias sempre aparece com todo o tipo de quinquilharias. Mas ela como sempre está disposta a me ajudar, e eu não poderia recusar o presente.
-Tá, onde eu vou para retirar o premio?
-Não precisa ir a lugar algum, basta permanecer ai onde está.

Me deixei cair na cama e esperei.
Eu sentia meu corpo todo anestesiado, mas em minha cabeça eu dançava.
Eu rodopiava. Sentia meus olhos pesados quando do nada apaguei.

Acordei olhando para meus pés que calçavam um tenizinho nº 28. Também notei que eu vestia meias de lã e polainas. Olhei para o lado e vi meu pai. Ele ainda tinha cabelos e me olhava com seus olhos azuis-eu-estou-aqui. Me dei conta de que eu estava sentada no banco do carona de um opala em 1989. Eu digeri o fato muito rapidamente. No rádio tocava a minha fita k7 do Dire Straits. Senti nas costas um chutinho. Como eu pude me esquecer, sem ela a cena não seria completa. No banco de trás estava sentada a minha irmã, babando e emitindo sons indecifráveis.
Eu decidi aproveitar o momento. Coloquei o braço pra fora, e senti o vento emaranhando meu cabelo rabo-de-cavalo.

Nós paramos. Eu saltei do carro e libertei minha irmã da cadeirinha. Eu a segurei desajeitadamente e ela emitiu um gemido indicando que eu a estava abraçando forte demais.

Meus olhos brilharam. E eu corria o mais rápido que podia pela grama, apesar da limitação imposta pelas pernas pequenas. O jardim cheirava a flores. Era a primavera antecipada do inicio de setembro.

Na porta, minha mãe esperava por nós, com os braços abertos e um sorriso no rosto.

Juliana tinha razão como sempre.
Nada jamais vai me impedir de viver a felicidade que está na memória.