sábado, 15 de setembro de 2007

Juliana estava sentada à mesa e com descaso eu preparava algo para o jantar.
Eu misturava todos os ingredientes e esperava que eles combinassem em algum tom pastel ou talvez em algum tom vivo como um laranja avermelhado, pois aí sim estaria no ponto. Ao menos era o que indicava no livro de receitas que Juliana me emprestou.

Depois de pronto, o prato cor de laranja mais parecia uma sopa ou alguma espécie de caldo, e eu desconfiava pelo gosto terrível que a qualquer momento alguma criatura saltasse dali.

Eu olhava para Juliana saboreando o prato e esperava dela alguma espécie de reprovação, mas ela olhou nos meus olhos e disse: “perfeito”.
-Perfeito? Mas ficou uma droga!

Ela continuava comendo e comecei a pensar que talvez o problema fosse comigo.
Talvez eu estivesse com algum problema de paladar ou algo parecido.

Fui até a cozinha conferir os ingredientes que eu havia utilizado. Juliana os havia comprado numa feirinha que acontece uma vez ao ano, sempre na primeira curva de algum lugar fantástico e imaginário. Sua verdadeira localização eu desconheço.

Reuni uma ao lado da outra as embalagens multi-coloridas, e como num instinto fui enfileirando-as e mudando a ordem até que curiosamente percebi que em cada uma delas havia uma sílaba. E agora em letras garrafais eu lia:
“Qual é a causa da sua indigestão?”

Juliana cochilava no sofá com satisfação e eu sentia meu estomago embrulhado.
Nunca senti algo tão perturbador. Só no que eu conseguia pensar era em meu estômago e na dor que eu sentia. Todo o resto havia sido esquecido e silenciado.

Eu andava de um lado para outro, até que comecei a sentir que algo estava acontecendo comigo. Senti que algo subia pela minha garganta, similar ao refluxo de que sofrem alguns bebês.

E para surpresa de todos, saltou da minha boca um bilhete.
-Acho que chegou uma carta para você.
Dizia Juliana se espreguiçando, quando eu mesma já havia me esquecido da existência dela.

Li com atenção. Nunca imaginei que eu tinha coisas tão duras e verdadeiras para dizer a mim mesma. E foi como se alguém tivesse me sacudido, me dado uns tapas e depois me abraçado.

Dobrei a carta e guardei com cuidado o que a parte que vive em mim havia escrito. E no final ela assinou:
“Com amor, A louca que governa a sua vida”.

4 comentários:

dantezcoman disse...

Ei, quais eram os ingredientes e como eu faço essa receita? Quero provar.

Sra. Gabriela Sindromelica disse...

Genial, como de costume!
Abração, Momo!

Wagneto disse...

"A louca que governa a sua vida", nossa! H� mais facetas a serem mostradas, hehehehe! Muito bom!

O ANTAGONISTA disse...

Fantástico, mais uma vez!!!

Ei, não sobrou um pouquinho dessa sopa não? Acho que estou precisando com urgência.

Valeu.