sábado, 1 de setembro de 2007

-Você ganhou! Ganhou!
Juliana vinha correndo, e tinha nas mãos o que parecia ser um bilhete de loteria.
-Que diabos, me deixa ver o que eu ganhei!
No bilhete, abaixo dos números sorteados dizia: “ Uma vida completamente alucinante”.
-Você só pode estar brincando, quem é que precisa disso.
Tudo o que eu queria era paz e tranqüilidade. E uma rede, também não viria mal.
Quando Juliana some por alguns dias sempre aparece com todo o tipo de quinquilharias. Mas ela como sempre está disposta a me ajudar, e eu não poderia recusar o presente.
-Tá, onde eu vou para retirar o premio?
-Não precisa ir a lugar algum, basta permanecer ai onde está.

Me deixei cair na cama e esperei.
Eu sentia meu corpo todo anestesiado, mas em minha cabeça eu dançava.
Eu rodopiava. Sentia meus olhos pesados quando do nada apaguei.

Acordei olhando para meus pés que calçavam um tenizinho nº 28. Também notei que eu vestia meias de lã e polainas. Olhei para o lado e vi meu pai. Ele ainda tinha cabelos e me olhava com seus olhos azuis-eu-estou-aqui. Me dei conta de que eu estava sentada no banco do carona de um opala em 1989. Eu digeri o fato muito rapidamente. No rádio tocava a minha fita k7 do Dire Straits. Senti nas costas um chutinho. Como eu pude me esquecer, sem ela a cena não seria completa. No banco de trás estava sentada a minha irmã, babando e emitindo sons indecifráveis.
Eu decidi aproveitar o momento. Coloquei o braço pra fora, e senti o vento emaranhando meu cabelo rabo-de-cavalo.

Nós paramos. Eu saltei do carro e libertei minha irmã da cadeirinha. Eu a segurei desajeitadamente e ela emitiu um gemido indicando que eu a estava abraçando forte demais.

Meus olhos brilharam. E eu corria o mais rápido que podia pela grama, apesar da limitação imposta pelas pernas pequenas. O jardim cheirava a flores. Era a primavera antecipada do inicio de setembro.

Na porta, minha mãe esperava por nós, com os braços abertos e um sorriso no rosto.

Juliana tinha razão como sempre.
Nada jamais vai me impedir de viver a felicidade que está na memória.

6 comentários:

dantezcoman disse...

Não esqueça da felicidade do dia-a-dia. Acredite, ela existe, eu vi!

dantezcoman disse...

aliás, esse post me lembrou...

IX - Sou um Guardador de Rebanhos

Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,

Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

Jess disse...

Oh Deus! Que maravilha ler um texto assim... tão simples e que me fez lembrar das minhas polainas (!) e do meu cabelo rabo-de-cavalo(!). Não consigo me lembrar realmente da minha infância (a não ser pelas fotos), mas quase tive um deja vu ao ler seu blog... Muito bom, mesmo!

Abraço.

Wagner Sabbado disse...

Gostei muito da visita de voc�s, ser� sempre uma honra receber voc�s duas no meu site. O texto est� muito bom(novamente). Bjos para as duas.

O ANTAGONISTA disse...

Só não vou dizer que seu texto é brilhante para não parecer repetitivo... aaaaahhhhh.... vou ser repetitivo mesmo: brilhante!!! Mais uma vez, brilhante.

Esse texto está tão terno, tão sublime, tão lindo... eu nunca me arrepende de passar por aqui.

Parabéns!

Todos os jovens tristes disse...

Que nostalgia... Lembro que na minha infância o mundo era tão grande. A casa, o carro, os adultos...