quarta-feira, 17 de outubro de 2007

-Você precisa se livrar dele.
Com a ponta dos dedinhos Juliana levantava meu cobertor e encarava meus pés, chocada com os furos em minhas meias.
-Como você sabe que foi um rato?
Eu fazia a mesma pergunta pela milésima vez.
-Se é ou não é um rato, não sei, mas sei com certeza que não estamos sozinhas.
Virei para o lado para continuar dormindo. Meu corpo já fazia parte do colchão há dois dias.As janelas do quarto estavam fechadas há muito tempo, e juliana andava na ponta dos pés para não tropeçar nas nossas coisas espalhadas pelo chão.
-Este quarto é tão bagunçado quanto a sua vida!
Ela tinha nas mãos uma vassourinha e tentava colocar as coisas em ordem, quando começou a perceber pela falta das coisas e entrou em pânico.
Não sei por quanto tempo eu dormi, mas sei que um dia se passou. E agora Juliana estava sentada ao meu lado com uma aparência terrível. Das minhas meias roídas só restavam fiapos e em meu dedo agora havia um corte. Eu me sentia tão doente que não me importava mais com a dor.
Todos os dias algo em meu quarto desaparecia como se tivesse sido perdido ou roubado, e Juliana temia pela fragilidade da sua existência e não queria ser a próxima a desaparecer.
Eu não conseguia encarar a escuridão por mais que eu tentasse, pois em meus sonhos os lugares eram todos iluminados. Enquanto a negação agia em mim como uma espécie de droga, a paranóia fazia Juliana ver coisas:
-Meu Deus! Agora nós perdemos a fechadura! Estamos presas! Mas eu pego ele antes que leve a janela.
Juliana se preocupava com o rato, mas eu simpatizava com ele. Não acho que ser ruim fosse sua intenção, ele havia me contaminado com as mais belas ilusões.

Eu me ocupava com as luzes coloridas que dançavam em minha mente, enquanto Juliana permanecia sentada num canto do quarto, e alucinada repetia para si mesma:
-Ele é a fonte de todo o mal.