quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Era um dia pensativo no mundo imaginário. Desses em que até Juliana que é avessa a essa coisa de pensar, estava pensando. Precisávamos esvaziar a cabeça. Saímos para caminhar. Caminhamos e caminhamos até ela precisar comprar sapatos novos. Juliana lamentou por ser sozinha no mundo. E para mim ela podia desabafar:
-A vida não é nada econômica quando se tem que criar a si mesmo...
Eu também não tinha muito dinheiro, mas o dó que eu sentia por ela valia cada centavo.
-Vou te dar um par desses de presente. - E apontei para os sapatos prateados que se exibiam para nós em uma vitrine. Ela entrou na loja dando pequenos pulinhos de felicidade e em seguida a vendedora buscava os sapatos para que ela os experimentasse. Diferente de mim que escolho as coisas pela beleza, Juliana os escolhia pela praticidade:
-E o que eles fazem? - Perguntou.
-Ah, esses vão te levar de volta pra casa. - Respondeu a vendedora, recebendo em troca um sorriso de aprovação.
Fomos embora. Juliana carregava a caixa nos braços, feliz como uma mulher quando compra alguma coisa.
-Obrigada pelo presente. - Ela disse. E em resposta ao meu olhar saudoso ela completou:
-É uma pena que não tinha o seu número.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008


Juliana não se sente mais sozinha em seu mundo desde que ganhou uma gata de estimação. Talvez por isso já não me procure tanto. O animalzinho apareceu dia desses ronronando em frente à sua porta.
– Já é velha – dizia Juliana, enquanto a gatinha branca se enroscava entre minhas pernas pedindo carinho –, tem uns bigodes faltando, o que a deixa meio desorientada, mas ainda é uma ótima caçadora.
– Qual o nome dela?
– Não sei, ela não me disse – sussurrou, erguendo os ombrinhos.
Os olhos da gatinha brilhavam num azul piscina fascinante enquanto ela levava suas patinhas ao ar tentando agarrar borboletas.
– Ela parece quietinha, mas é uma grande contadora de histórias – disse Juliana.
– Eu gostaria muito de ouvi-las.
Percebendo que falávamos dela, a gatinha respondeu:
– Miau.
Ficamos sentadas a imaginar, já que não podíamos ouvi-la. E matamos o tempo na varanda, saboreando o gosto maravilhoso do nada.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Juliana segurava na ponta do nariz um choro sentido.
Enquanto isso em baixo de sua cama eu lutava contra algum tipo de monstro.
Eu que tenho dó até das piores criaturas, tive que matá-lo.
-Pode vir agora. - Eu disse, pegando ela nos braços.
Ela dormia seu sono não tão profundo, e agora era eu que encarava o teto.
-Não consegue dormir? - Ela murmurou - Onde está o monstro?
Não era nada que pudéssemos lutar contra, e explicar isso para Juliana é algo difícil.
-E o que é então? O que?
-É a vida Juliana. A vida. As vezes perco a fé na humanidade.
Seus olhinhos brilharam no escuro e durante algum tempo ela pensou:
"Sorte a minha que não sou ninguém".

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Eu dava um propósito a vida de uma garrafa de vinho enquanto Juliana saboreava um prato de felicidade.

Fomos dar uma volta e ela me levou a um restaurante novo. Chegamos atrasadas, mas para meu espanto, a melhor mesa nos aguardava.
-A mesa de sempre mademoiselle? – Disse o homem empinado, se curvando para ficar a altura dela. Juliana assentiu, e eu a segui como mera convidada.

Eu estava faminta.
E estaria até agora se o rapaz de gravatinha não tivesse atendido ao meu pedido.
A faca e o garfo já arranhavam a louça quando Juliana perguntou:
-O que era isso?
-Não sei. Mas tinha gosto de nada.
Nos preparávamos para levantar da mesa quando o garçon veio até nós.
-Amor?
-Eu não, obrigada. – Juliana faz sinal com o dedinho. – Já estou cheia.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Eu estava sentada em um bar, com o cabelo devidamente arrumado de maneira decadente e proposital.
Eu segurava um recorte em que figurava um casal. Através da foto os dois falavam comigo. Respondi com aquele olhar profundo "adeus, me deseje sorte" e chamei a garçonete.

A garota de cabeça de liquidificador veio em minha direção. Apertei o botão em seus lábios. Ela respondeu com um silêncio igual ao zumbido de uma abelha gigante. Se curvou enchendo meu copo de uma bebida quente e amarga. "Assim como eu", pensei.

Bebi satisfeita e ocupava minha mente com imagens adoráveis quando Juliana me interrompeu.
-Telefone pra você.
Era a Realidade. Desliguei na cara dela (Eu estava de muito mau humor).
-Mas ela sente saudades... - Dizia Juliana, tentando me convencer.

Resmungo algo impronunciável. Começo a dançar, seguindo o conteúdo das inúmeras latinhas amassadas jogadas no chão. E encontro o estado de paz perfeito.

No fundo da sala, Juliana fala ao telefone:
-Não se preocupe, ela volta. Ela sempre volta.

domingo, 8 de junho de 2008

Eu me esticava ao sol, vergonhosamente preguiçosa, quando percebi que ela vinha em minha direção. Juliana caminhava cheia de si, num andar característico daqueles que não existem. É uma maneira de disfarçar seu complexo de inferioridade. Sentou ao meu lado e abriu sua mochilinha. Quando seus dedinhos miúdos tiraram dela uma toalha xadrez, descobri que teríamos um piquenique.
-Acho que vai chover. Chocolates de guarda chuvinhas pra mim. Para você, sorvete.
O tempo corria como só ele sabe fazer, mas Juliana o parou.
Aproveitávamos o calor do sol com verdadeira devoção, quando em pânico ela surtou:
-Para onde esse danado foi?
-Quem? – perguntei.
-Nosso momento de felicidade!
(Ela estava certa. Nem percebi quando o tédio me engoliu).
Juliana o procurava, com os olhos voltados para o chão. Se a linguagem de um relógio valesse alguma coisa no nosso dia perfeito, eu diria que ela ficou assim por horas.
Eu não lhe disse, mas o encontrei. Mesmo ansiosa por chamá-lo, eu me contive.
E com desconfiança o encarei distante.

sábado, 7 de junho de 2008

Não sei que dia é hoje. Estou dormindo e sonhando.
Juliana me convidou para uma festa.
É noite e o lugar está cheio de pessoas. Todas elas dançam.
Vejo um rosto conhecido:
-Quanto tempo! – Ele diz.
-É mesmo. Como está a família?
-Elas estão aqui!
Ele aponta para onde dou as costas. Me viro e vejo um armário de portas compridas com prateleiras dentro.
Abro e lá estão: sua mãe, sua irmã, sua tia e sua avó. Espremidinhas e encolhidinhas.
-Querida, quanto tempo! Como está?
-Bem! E vocês?
-Estamos ótimas! - respondem em coro.
Fecho o armário. Em outro canto alguém me chama.
-Vamos ver como está esse aparelho?
-Aham. - Dou um sorriso largo.
Me deito. Estou numa mesa de autópsia ao por do sol. Minha família está aqui.
Grãos de milho estouram. Pipocas salgadas transbordam da minha barriga, enquanto eles enchem as mãos e as levam até a boca, famintos.
Acordo atrasada. Tomo banho, me visto. Vou pra faculdade. Volto pra casa.
Na porta do meu quarto meu cachorro me espera.
-Vamos dormir? Pergunto. Ele responde abanando o rabinho. Pula na cama e deita a cabeça no meu travesseiro.
Fecho os olhos.
Com as mãos na cintura, Juliana pergunta:
-Preparada para mais diversão à meia-noite?

domingo, 25 de maio de 2008

Juliana estava triste, segurava entre as mãos um pássaro. Supostamente morto.
-Deixe me ver...é só uma asa quebrada. - Eu disse.
A tempestade da noite anterior deve tê-lo derrubado do ninho, e um gato o pegou. Ele vai ficar bem.
-Tem certeza?
-Tenho.
Claro que não muito tempo depois o pássaro morreu.
Eu depositava o pequeno defunto dentro da caixa de sapato mortuária.
E com os olhos cheios d'água ela resmungava:
-Ah, você não sabe de nada!

sexta-feira, 16 de maio de 2008

-Me conte algo interessante. – Pedia a minha pequena, enquanto me acompanhava em mais um dia terrível.
Eu esperava o ônibus as 7:30 da manhã. Minhas mãos congeladas seguravam R$ 1,65, o suficiente para pagar a passagem.
-Mas o quê?
-Conte um sonho, sei lá.
Ela conhece todos. Devia estar muito entediada.
-Então vamos brincar! – Sugeriu.
Eu não conseguia pensar em muita coisa. Escondi um de meus brincos na palma da mão.
-O quê eu tenho aqui?
-Não sei o que é, mas com certeza é alguma coisa. – ela bocejava e revirava os olhos. Eu não sou um ser muito interessante.
Não demorou muito para ela tentar adivinhar meus pensamentos. Ela se ocupou daquele exercício por bastante tempo. Eu penso em um idioma estranho e inventado.
Até que notou meus olhos fixos no nada, com um ar de quem sonha.
-Pensando nisso de novo? Por quê?
- Não sei.
Dentro do ônibus, escolho um lugar para sentar e Juliana senta atrás de mim.
Ela ajeita seus óculos escuros de lentes em forma de coração e resmunga seu mau humor matinal.
-Morgana, você nunca foi muito normal.
-Obrigada, Juliana.
-Amigos são pra isso.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Ir ao supermercado com crianças nunca é aconselhável.
Juliana caminhava em silêncio atrás de mim enquanto eu empurrava o carrinho de compras. E quando dei por mim, ela havia empilhado no carrinho inúmeras caixinhas.
-Juliana, o que é isso? – eu olhava para as embalagens de “Felicidade Instantânea” sabor morango com perplexidade.
-Mas Juliana, temos um armário cheio disso!
-Logo, logo vai terminar. – ela disse.
“Deixe que termine”, pensei.
Eu preciso de melancolia. Preciso de uma insônia dessas que causam olheiras. Olheiras que pareçam cavernas profundas onde eu possa esconder-me.
Eu já banalizei tudo o que eu podia, o que me resta agora?
-Uma nova decepção, que tal? – dizia Juliana, me oferecendo um sorvete de sabor duvidoso.
Sentamos no cordão da calçada entre os pacotes de compras.
Ela apoiou o queixo nas mãozinhas como sempre num ar entediado e eu comecei a questionar novamente se não havia nada de errado comigo.
- Você não existe. E eu sou velha demais para amigos imaginários.
-Não seja tola. – disse ela com um sorriso malicioso. -Somos todos imaginários uns para os outros.

sábado, 5 de abril de 2008

-Escrever sobre o quê? Há tantas coisas para serem vividas!
Dizia Juliana, rodopiando na ponta dos pés.
Eu olhava para ela, tão leve e alegre. Enquanto minha cabeça mau-humorada e pesada mais parecia uma fruta madura pronta para saltar para o gramado.
Eu olhava algumas fotos. Encontrei uma foto minha de quando era pequena. Os olhos ainda são iguais. Não apenas no formato (parece que não cresceram!), mas na forma como brilham. Olhinhos de bolita. Como as bolinhas do abajur de bolinhas de gude. O “abagudejur”.
-Ainda sou a mesma? – Perguntei para Juliana.
-Sim. Mas sinto saudades dela.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Eu amo crianças.
Eu amo as crianças, pois poucas coisas as afetam.
O medo desaparece quando você acende a luz. Quando os monstros incomodam, basta trancá-los no armário. Adultos não podem fazer isso com outros adultos.
A infância parece ser a única fase da vida em que realmente as coisas fazem sentido. As crianças vivem em um mundo diferente. Um lugar seguro, um lugar de paz. A infância é uma preparação para o purgatório da adolescência. Você só percebe que a vida adulta é o inferno quando você se vê sentado de gravata atrás de uma mesa quando seu verdadeiro sonho era...

Eu tenho um priminho de dois anos e oito meses. Ele é um doce e é um menino muito inteligente. Fala um milhão de coisas. E como qualquer outra criança que é esperta demais para a sua idade, ele adora fazer perguntas que não tem resposta.
Ele adora bandas de rock. E um dia desses eu assistia com ele um vídeo do Kiss, quando ele me perguntou:
-Onde ele comprou a bateria dele?
-Eu não sei. – Respondi
Ele estava pensativo e estranhamente curioso.
-Onde ele comprou a bateria dele?
-Eu não sei!
Geralmente eu tenho muita paciência com crianças, mas naquele dia eu estava muito cansada do trabalho, um pouco deprimida e a minha crise existencial era daquelas de causar dor de cabeça.
-Sabe sim! – Ele insistiu.
Não me saio bem sob pressão.
-Artur, eu não sei quem eu sou, eu não sei o que fazer da minha vida, eu não sei o que eu quero a maior parte do tempo! Como eu vou saber onde o cara do Kiss comprou a bateria dele?
Ele riu. E eu ri também.

Eu o puxei para o meu colo lhe fazendo cócegas para ouvir as gargalhadas que sempre animam o meu dia. Dei-lhe um beijo no rosto do qual ele tentou se desvencilhar.
Ele olhou nos meus olhos com aquele olhar tão maduro que chega a ser desconcertante, e eu perguntei:
-Mas porque tu quer saber isso?
-Eu vou no show. Vou tocar lá.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Para Juliana, que não estava acostumada a diversão, ir a um parque era um grande acontecimento. Não pude acompanhá-la, pois peguei um tipo estranho de resfriado, que me fez passar o dia na cama, cercada por lencinhos de papel e muitos chocolates.

Eu espiei ela sair de casa bem cedinho. Ela levava nas costas uma mochila vazia, pois não precisava de nada além de si mesma. Naquela manhã ela podia ter calçado os sapatos da tranqüilidade ou da doçura, ou qualquer outro que ela quisesse (pois ela tinha muitos). Mas ela havia calçado os sapatinhos vermelhos da diversão absurda e interminável.

Vi ela se perder no horizonte, decidida, quando o sol já estava alto no céu e eu já estava pronta para voltar a dormir de novo. Nos meus sonhos eu podia ouvir seus gritinhos infantis e ver no seu rostinho o contentamento.

De todos os brinquedos, o que ela mais gostou foi um conjunto de chá gigantesco. Certamente era o presente de um gigante para sua esposa (Ela não devia ter gostado muito para deixar que qualquer criança brincasse ali).

Ela estava sentada na xícara girante. A xícara girava cada vez mais rápido e a cada volta a vida parecia mais emocionante. Foi numa dessas voltas que ela reparou em um menino na xícara ao lado. Ele sabia fazer uma mágica com olhar que fazia o coração pular. E estar ao seu lado era tão agradável que fazia com que aquela xícara de latão descascado mais parecesse porcelana chinesa.

Seus olhinhos se encontraram. Agora ela sentia-se ansiosa, nervosa, com dor de estômago e como se houvesse algo de muito errado nela. Se soubesse, não teria usado o vestidinho amarelo naquele dia. Também começava a pensar que estampa de girafinha não era apropriada para um encontro. A agitação passou em alguns minutos, ele foi embora e ela lembrou de respirar de novo.

Juliana não gostou de se apaixonar. Era esquisito que algo tão real de repente parecesse apenas fruto da sua imaginação. Uma ilusão, apenas. Muito menos estranho seria se, aborrecido, um gigante dissesse:
– Querida! Tem uma garotinha no meu chá!

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Uma noite mal dormida causa inspiração. O tédio e a falta do que fazer me fazem pular do sofá com excitação, como se numa brincadeira alguém me fizesse saltar num susto.
E em seguida eu estou parada na porta encarando o nosso jardim. Há árvores, e o que há além delas eu não consigo enxergar. Num jardim visto a noite, as plantas fingem ser horripilantes formas.
- Elas sempre fazem isso. – Juliana diz.
As pontinhas dos galhos se movem como dedos num piano. Não balançam com o vento. São suas mãos tentando nos pegar.
-Daremos nomes a elas. E assim elas serão nossas amigas.
Para caminhar e admirar o luar no nosso jardim é preciso pedir permissão.
No escuro, da porta para fora não é nosso lar. E respeitamos o silêncio.
Vamos dormir, e Juliana abraça com firmeza seu ursinho. O cachorro, se aninha em meu travesseiro como se fosse seu. Me reviro na cama desconfortavelmente. Sinto o corpo adormecer...

-Que se dane o resto. Vamos dançar! - Juliana me rouba da cama.
E vista-se – A pequena diz. – As fadas não dão festas de pijamas.

domingo, 13 de janeiro de 2008

Juliana voltou das férias, e nos bolsos tudo o que tinha era alguns trocados e uma lista das coisas pelas quais vale a pena viver. Os olhinhos dela estavam voltados para mim e em silencio eu fazia a pergunta de sempre: “o que faremos agora?”. Ela respondeu que também não sabia.
-Você devia perguntar a si mesma. Alguma delas deve saber.

Em minha mente há um quartinho que só Juliana tem a chave. É lá que vivem as outras morganas. Elas não saem muito. E entediadas caminham de um lado para o outro entre as paredes brancas. Uma delas senta num canto e acende um cigarro. Ela nem liga para o fato de que eu não fumo. Deitada no chão, uma delas esta triste sem motivo, enquanto outra ri de mim. Esta tem muitos motivos. São tantas que acho que não conheço todas elas.

Que sorte, eu me acostumei a viver assim.

Eu sentia uma forte dor de cabeça.
-Soube que houve uma rebelião. – Disse Juliana.
Mataram a ansiosa. A romântica e a sonhadora foram feitas reféns. A inteligente fugiu há muito tempo.

Uma rebelião? Não pensei que em mim havia uma instigadora.

Juliana perambulava curiosa.
-Quem será a líder? - perguntou para a alienada, mas ela não sabia de nada.

Mas eu sabia. E Juliana agora se recordava dela. Tínhamos um plano.

E depois de muito pensar finalmente resolvemos o que fazer este ano.
Trancaremos todas as outras.
Seja o que for, mas que seja divertido.
Vamos deixar a louca decidir.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Acordei no paraíso com tanta sede que quis beber a água do mar. Que tola que eu fui.
Como pude pensar que encontraria doçura?
E bebi e bebi toda a água salgada sem ficar satisfeita.
O calor do sol causava euforia. E quando percebi, eu havia me embriagado sem pedir a mim mesma o consentimento.
As pernas eram leves e os braços dançavam no ar sem precisar de nenhuma espécie de música. Eu era o vazio entre o azul do céu e a areia branquinha. Eu não era nada mais. Eu sentia a paz de não ser ninguém. Não ter um corpo, não ter um nome. Não ter um cérebro que pensa, sentir o silêncio na cabeça oca. Gritaram em meus ouvidos: “Alguém está ai?”. O som ecoou distante. Eu era um precipício.