segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Para Juliana, que não estava acostumada a diversão, ir a um parque era um grande acontecimento. Não pude acompanhá-la, pois peguei um tipo estranho de resfriado, que me fez passar o dia na cama, cercada por lencinhos de papel e muitos chocolates.

Eu espiei ela sair de casa bem cedinho. Ela levava nas costas uma mochila vazia, pois não precisava de nada além de si mesma. Naquela manhã ela podia ter calçado os sapatos da tranqüilidade ou da doçura, ou qualquer outro que ela quisesse (pois ela tinha muitos). Mas ela havia calçado os sapatinhos vermelhos da diversão absurda e interminável.

Vi ela se perder no horizonte, decidida, quando o sol já estava alto no céu e eu já estava pronta para voltar a dormir de novo. Nos meus sonhos eu podia ouvir seus gritinhos infantis e ver no seu rostinho o contentamento.

De todos os brinquedos, o que ela mais gostou foi um conjunto de chá gigantesco. Certamente era o presente de um gigante para sua esposa (Ela não devia ter gostado muito para deixar que qualquer criança brincasse ali).

Ela estava sentada na xícara girante. A xícara girava cada vez mais rápido e a cada volta a vida parecia mais emocionante. Foi numa dessas voltas que ela reparou em um menino na xícara ao lado. Ele sabia fazer uma mágica com olhar que fazia o coração pular. E estar ao seu lado era tão agradável que fazia com que aquela xícara de latão descascado mais parecesse porcelana chinesa.

Seus olhinhos se encontraram. Agora ela sentia-se ansiosa, nervosa, com dor de estômago e como se houvesse algo de muito errado nela. Se soubesse, não teria usado o vestidinho amarelo naquele dia. Também começava a pensar que estampa de girafinha não era apropriada para um encontro. A agitação passou em alguns minutos, ele foi embora e ela lembrou de respirar de novo.

Juliana não gostou de se apaixonar. Era esquisito que algo tão real de repente parecesse apenas fruto da sua imaginação. Uma ilusão, apenas. Muito menos estranho seria se, aborrecido, um gigante dissesse:
– Querida! Tem uma garotinha no meu chá!

2 comentários:

Wagner Sabbado disse...

A Juliana saiu e não esperava encontrar alguém que a fosse deixar desconcertada, por mais que fosse algo tão banal e passageiro, aquilo mexeu com ela. Não gostou da situação, pois não teve controle sobre ela. É engraçado que alguém que conhece tanto da vida possa passar por isso, mas é normal.

O ANTAGONISTA disse...

Brilhante!