sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Eu amo crianças.
Eu amo as crianças, pois poucas coisas as afetam.
O medo desaparece quando você acende a luz. Quando os monstros incomodam, basta trancá-los no armário. Adultos não podem fazer isso com outros adultos.
A infância parece ser a única fase da vida em que realmente as coisas fazem sentido. As crianças vivem em um mundo diferente. Um lugar seguro, um lugar de paz. A infância é uma preparação para o purgatório da adolescência. Você só percebe que a vida adulta é o inferno quando você se vê sentado de gravata atrás de uma mesa quando seu verdadeiro sonho era...

Eu tenho um priminho de dois anos e oito meses. Ele é um doce e é um menino muito inteligente. Fala um milhão de coisas. E como qualquer outra criança que é esperta demais para a sua idade, ele adora fazer perguntas que não tem resposta.
Ele adora bandas de rock. E um dia desses eu assistia com ele um vídeo do Kiss, quando ele me perguntou:
-Onde ele comprou a bateria dele?
-Eu não sei. – Respondi
Ele estava pensativo e estranhamente curioso.
-Onde ele comprou a bateria dele?
-Eu não sei!
Geralmente eu tenho muita paciência com crianças, mas naquele dia eu estava muito cansada do trabalho, um pouco deprimida e a minha crise existencial era daquelas de causar dor de cabeça.
-Sabe sim! – Ele insistiu.
Não me saio bem sob pressão.
-Artur, eu não sei quem eu sou, eu não sei o que fazer da minha vida, eu não sei o que eu quero a maior parte do tempo! Como eu vou saber onde o cara do Kiss comprou a bateria dele?
Ele riu. E eu ri também.

Eu o puxei para o meu colo lhe fazendo cócegas para ouvir as gargalhadas que sempre animam o meu dia. Dei-lhe um beijo no rosto do qual ele tentou se desvencilhar.
Ele olhou nos meus olhos com aquele olhar tão maduro que chega a ser desconcertante, e eu perguntei:
-Mas porque tu quer saber isso?
-Eu vou no show. Vou tocar lá.