domingo, 25 de maio de 2008

Juliana estava triste, segurava entre as mãos um pássaro. Supostamente morto.
-Deixe me ver...é só uma asa quebrada. - Eu disse.
A tempestade da noite anterior deve tê-lo derrubado do ninho, e um gato o pegou. Ele vai ficar bem.
-Tem certeza?
-Tenho.
Claro que não muito tempo depois o pássaro morreu.
Eu depositava o pequeno defunto dentro da caixa de sapato mortuária.
E com os olhos cheios d'água ela resmungava:
-Ah, você não sabe de nada!

sexta-feira, 16 de maio de 2008

-Me conte algo interessante. – Pedia a minha pequena, enquanto me acompanhava em mais um dia terrível.
Eu esperava o ônibus as 7:30 da manhã. Minhas mãos congeladas seguravam R$ 1,65, o suficiente para pagar a passagem.
-Mas o quê?
-Conte um sonho, sei lá.
Ela conhece todos. Devia estar muito entediada.
-Então vamos brincar! – Sugeriu.
Eu não conseguia pensar em muita coisa. Escondi um de meus brincos na palma da mão.
-O quê eu tenho aqui?
-Não sei o que é, mas com certeza é alguma coisa. – ela bocejava e revirava os olhos. Eu não sou um ser muito interessante.
Não demorou muito para ela tentar adivinhar meus pensamentos. Ela se ocupou daquele exercício por bastante tempo. Eu penso em um idioma estranho e inventado.
Até que notou meus olhos fixos no nada, com um ar de quem sonha.
-Pensando nisso de novo? Por quê?
- Não sei.
Dentro do ônibus, escolho um lugar para sentar e Juliana senta atrás de mim.
Ela ajeita seus óculos escuros de lentes em forma de coração e resmunga seu mau humor matinal.
-Morgana, você nunca foi muito normal.
-Obrigada, Juliana.
-Amigos são pra isso.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Ir ao supermercado com crianças nunca é aconselhável.
Juliana caminhava em silêncio atrás de mim enquanto eu empurrava o carrinho de compras. E quando dei por mim, ela havia empilhado no carrinho inúmeras caixinhas.
-Juliana, o que é isso? – eu olhava para as embalagens de “Felicidade Instantânea” sabor morango com perplexidade.
-Mas Juliana, temos um armário cheio disso!
-Logo, logo vai terminar. – ela disse.
“Deixe que termine”, pensei.
Eu preciso de melancolia. Preciso de uma insônia dessas que causam olheiras. Olheiras que pareçam cavernas profundas onde eu possa esconder-me.
Eu já banalizei tudo o que eu podia, o que me resta agora?
-Uma nova decepção, que tal? – dizia Juliana, me oferecendo um sorvete de sabor duvidoso.
Sentamos no cordão da calçada entre os pacotes de compras.
Ela apoiou o queixo nas mãozinhas como sempre num ar entediado e eu comecei a questionar novamente se não havia nada de errado comigo.
- Você não existe. E eu sou velha demais para amigos imaginários.
-Não seja tola. – disse ela com um sorriso malicioso. -Somos todos imaginários uns para os outros.