sexta-feira, 2 de maio de 2008

Ir ao supermercado com crianças nunca é aconselhável.
Juliana caminhava em silêncio atrás de mim enquanto eu empurrava o carrinho de compras. E quando dei por mim, ela havia empilhado no carrinho inúmeras caixinhas.
-Juliana, o que é isso? – eu olhava para as embalagens de “Felicidade Instantânea” sabor morango com perplexidade.
-Mas Juliana, temos um armário cheio disso!
-Logo, logo vai terminar. – ela disse.
“Deixe que termine”, pensei.
Eu preciso de melancolia. Preciso de uma insônia dessas que causam olheiras. Olheiras que pareçam cavernas profundas onde eu possa esconder-me.
Eu já banalizei tudo o que eu podia, o que me resta agora?
-Uma nova decepção, que tal? – dizia Juliana, me oferecendo um sorvete de sabor duvidoso.
Sentamos no cordão da calçada entre os pacotes de compras.
Ela apoiou o queixo nas mãozinhas como sempre num ar entediado e eu comecei a questionar novamente se não havia nada de errado comigo.
- Você não existe. E eu sou velha demais para amigos imaginários.
-Não seja tola. – disse ela com um sorriso malicioso. -Somos todos imaginários uns para os outros.

2 comentários:

Wagner Sabbado disse...

Gostei muito do texto. A subjetividade está transbordando e fazem surgir frases muito interessantes como: "Olheiras que pareçam cavernas profundas onde possa esconder-me" e "Somos todos imaginários uns para os outros". Essa última frase ficou ótima, ela ficou ecoando depois que eu terminei de ler o texto. "Eu preciso de melancolia. Preciso de uma insônia dessas que causam olheiras", nesse momento não vou dar uma de livro auto ajuda(como sempre faço) e vou dizer o que eu pensei; isso me lembrou muito dos malditos do século XIX. Acho que a melancolia não está separada da arte e isso Morgana, acho que você não precisa comprar, pois todo o artista a carrega como uma cruz ou uma maldição. Está contigo.

Denis disse...

Gostei desse. Me identifiquei. :)