quarta-feira, 25 de junho de 2008

Eu dava um propósito a vida de uma garrafa de vinho enquanto Juliana saboreava um prato de felicidade.

Fomos dar uma volta e ela me levou a um restaurante novo. Chegamos atrasadas, mas para meu espanto, a melhor mesa nos aguardava.
-A mesa de sempre mademoiselle? – Disse o homem empinado, se curvando para ficar a altura dela. Juliana assentiu, e eu a segui como mera convidada.

Eu estava faminta.
E estaria até agora se o rapaz de gravatinha não tivesse atendido ao meu pedido.
A faca e o garfo já arranhavam a louça quando Juliana perguntou:
-O que era isso?
-Não sei. Mas tinha gosto de nada.
Nos preparávamos para levantar da mesa quando o garçon veio até nós.
-Amor?
-Eu não, obrigada. – Juliana faz sinal com o dedinho. – Já estou cheia.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Eu estava sentada em um bar, com o cabelo devidamente arrumado de maneira decadente e proposital.
Eu segurava um recorte em que figurava um casal. Através da foto os dois falavam comigo. Respondi com aquele olhar profundo "adeus, me deseje sorte" e chamei a garçonete.

A garota de cabeça de liquidificador veio em minha direção. Apertei o botão em seus lábios. Ela respondeu com um silêncio igual ao zumbido de uma abelha gigante. Se curvou enchendo meu copo de uma bebida quente e amarga. "Assim como eu", pensei.

Bebi satisfeita e ocupava minha mente com imagens adoráveis quando Juliana me interrompeu.
-Telefone pra você.
Era a Realidade. Desliguei na cara dela (Eu estava de muito mau humor).
-Mas ela sente saudades... - Dizia Juliana, tentando me convencer.

Resmungo algo impronunciável. Começo a dançar, seguindo o conteúdo das inúmeras latinhas amassadas jogadas no chão. E encontro o estado de paz perfeito.

No fundo da sala, Juliana fala ao telefone:
-Não se preocupe, ela volta. Ela sempre volta.

domingo, 8 de junho de 2008

Eu me esticava ao sol, vergonhosamente preguiçosa, quando percebi que ela vinha em minha direção. Juliana caminhava cheia de si, num andar característico daqueles que não existem. É uma maneira de disfarçar seu complexo de inferioridade. Sentou ao meu lado e abriu sua mochilinha. Quando seus dedinhos miúdos tiraram dela uma toalha xadrez, descobri que teríamos um piquenique.
-Acho que vai chover. Chocolates de guarda chuvinhas pra mim. Para você, sorvete.
O tempo corria como só ele sabe fazer, mas Juliana o parou.
Aproveitávamos o calor do sol com verdadeira devoção, quando em pânico ela surtou:
-Para onde esse danado foi?
-Quem? – perguntei.
-Nosso momento de felicidade!
(Ela estava certa. Nem percebi quando o tédio me engoliu).
Juliana o procurava, com os olhos voltados para o chão. Se a linguagem de um relógio valesse alguma coisa no nosso dia perfeito, eu diria que ela ficou assim por horas.
Eu não lhe disse, mas o encontrei. Mesmo ansiosa por chamá-lo, eu me contive.
E com desconfiança o encarei distante.

sábado, 7 de junho de 2008

Não sei que dia é hoje. Estou dormindo e sonhando.
Juliana me convidou para uma festa.
É noite e o lugar está cheio de pessoas. Todas elas dançam.
Vejo um rosto conhecido:
-Quanto tempo! – Ele diz.
-É mesmo. Como está a família?
-Elas estão aqui!
Ele aponta para onde dou as costas. Me viro e vejo um armário de portas compridas com prateleiras dentro.
Abro e lá estão: sua mãe, sua irmã, sua tia e sua avó. Espremidinhas e encolhidinhas.
-Querida, quanto tempo! Como está?
-Bem! E vocês?
-Estamos ótimas! - respondem em coro.
Fecho o armário. Em outro canto alguém me chama.
-Vamos ver como está esse aparelho?
-Aham. - Dou um sorriso largo.
Me deito. Estou numa mesa de autópsia ao por do sol. Minha família está aqui.
Grãos de milho estouram. Pipocas salgadas transbordam da minha barriga, enquanto eles enchem as mãos e as levam até a boca, famintos.
Acordo atrasada. Tomo banho, me visto. Vou pra faculdade. Volto pra casa.
Na porta do meu quarto meu cachorro me espera.
-Vamos dormir? Pergunto. Ele responde abanando o rabinho. Pula na cama e deita a cabeça no meu travesseiro.
Fecho os olhos.
Com as mãos na cintura, Juliana pergunta:
-Preparada para mais diversão à meia-noite?