domingo, 8 de junho de 2008

Eu me esticava ao sol, vergonhosamente preguiçosa, quando percebi que ela vinha em minha direção. Juliana caminhava cheia de si, num andar característico daqueles que não existem. É uma maneira de disfarçar seu complexo de inferioridade. Sentou ao meu lado e abriu sua mochilinha. Quando seus dedinhos miúdos tiraram dela uma toalha xadrez, descobri que teríamos um piquenique.
-Acho que vai chover. Chocolates de guarda chuvinhas pra mim. Para você, sorvete.
O tempo corria como só ele sabe fazer, mas Juliana o parou.
Aproveitávamos o calor do sol com verdadeira devoção, quando em pânico ela surtou:
-Para onde esse danado foi?
-Quem? – perguntei.
-Nosso momento de felicidade!
(Ela estava certa. Nem percebi quando o tédio me engoliu).
Juliana o procurava, com os olhos voltados para o chão. Se a linguagem de um relógio valesse alguma coisa no nosso dia perfeito, eu diria que ela ficou assim por horas.
Eu não lhe disse, mas o encontrei. Mesmo ansiosa por chamá-lo, eu me contive.
E com desconfiança o encarei distante.

3 comentários:

dantezcoman disse...

Antesmente, gostaria de dizer que "vergonhosamente preguiçosa" é heresia. Nenhuma preguiça é vergonhosa.

Outra: qual a desconfiança do momento de felicidade? Pode confiar, ele é legal.

Quel disse...

Às vezes, quando percebemos, o momento de felicidade "puft": some! Segure-o firme!
Beijos!

roger disse...

delicioso esse teu surrealismo!