domingo, 2 de agosto de 2009

- Eu já entendi. Você não gosta de mim – disse Juliana, dando mais uma olhada no objeto grande e reluzente no topo da prateleira.
Fomos passear no shopping e eu cometi o erro de entrar com ela em uma loja de brinquedos.
Eu ajoelhei no chão e olhei bem para os seus olhos:
- Não é isso, querida. É que esse brinquedo que você quer é muito caro. Quem sabe no dia das crianças?
Observei seu rostinho ficar vermelho e seus olhos incharem. Ela ia explodir:
- Mas eu quero agora!
O desejo de Juliana era urgente.
- Mas e que tal esse? – Mostrei pra ela um quebra-cabeças.
Ela não respondeu.
Mostrei pra ela outros brinquedos menores que pareciam bem legais.
- Eles são idiotas. Eu quero aquele! – ela gritou, apontando para o brinquedo grande e reluzente.
Depois de um tempo ela não agüentava mais lutar e havia percebido que não sairia dali com um grande pacote.
Ela começou a chorar.
As atendentes da loja pareciam não se importar com o escândalo:
- Não esquenta, nós vemos isso o tempo todo – disse a atendente, ao passar por mim.

Juliana se acalmou e acabou escolhendo um outro brinquedo, afinal.
Na volta pra casa, ela se divertia com a nova aquisição:
- E então? Gostou do presente? – eu perguntei.

Ela olhou pra mim como se fosse me morder:
- É uma porcaria.

domingo, 29 de março de 2009

Eu escovava meu cabelo, cuidadosamente semi-alcoolizada.
Um sapo em minha garganta saltitava.
Pela janela, eu observava o gramado iluminado em plena tarde quente de domingo.
A grama parecia estar feliz por ser apenas um monte de folhas verdes.
E eu a invejava.

Juliana me observava, sentada no sofá. O sorriso estampado em seu rostinho não me agradava muito:
-Acho que você finalmente enlouqueceu.

sábado, 7 de março de 2009

E Chegou o dia em que a pequena Juliana se presenteou com o direito de ficar braba. Aparentemente eram muitos motivos.
Mas a raiva para alguém tão bom é uma questão de preparação. Passaram dias e dias, sem que eu ouvisse uma palavra dela. Ela passou meses em silêncio até o dia em que finalmente seus lábios se abriram e a palavra saiu, incrivelmente bela:
-Ódio.
A palavra foi embora no ar, perfeita. Com todas as sílabas, com letra maiúscula e com um ponto final.

Agora não havia sobrado nada, e ela estava preparada para novas frases, maiores e mais bonitas.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

-Pronto...passou.
Eu disse, depois de soprar o joelho ralado de Juliana.
-Crianças não são idiotas. - Ela respondeu, buscando um curativo na caixinha de remédios.
Embora ela já estivesse acostumada com esses pequenos acidentes da infância, um ferimento é sempre um ferimento.
-Peguei um a mais para você. - E estendeu a mão me entregando um band-aid.
-Mas pra quê?
-Você sabe, para aqueles ferimentos de adultos. No coração. - Falou.
-Não preciso, obrigada. Ele está bem. - Respondi.
E ela me encarou surpresa.
-Mas que chato!