domingo, 14 de novembro de 2010

Quando vê uma hidrocor, Juliana pira. Cinco anos: a idade do desenho.
- Fiz pra você, é seu retrato! – Ela me entrega uma folha de papel.
Eu faço cara de quem gostou. Mas ela sabe que não está muito parecido comigo.
-Eu não tinha todas as cores... - Ela se justifica.
Eu dobro o desenho e guardo no meu bolso com carinho.
Ela ergue as mãos pro alto, abrindo bem os dedinhos, e eu a acompanho até a pia do banheiro. Suas mãos estão imundas e coloridas.
- Vinte e seis é idade do quê? – Ela me pergunta.
Pega de surpresa, eu não sabia bem o que responder:
- De colar pétalas de flores nas unhas e fingir que é esmalte?
Nós duas nos olhamos e começamos a rir.
Escuto um suspiro de orgulho. O rosto dela se ilumina:
-Isso sim parece você!

sábado, 25 de setembro de 2010

- Então você vai ficar em casa comigo hoje?
Juliana me encarava, não acostumada a ver meu rosto em sua cor natural. Pelo canto do olho ela observava o estojo de maquiagem intocado.
- Posso fazer de conta que hoje eu então sou a mulherzinha?
- Pode. – Eu disse.
Eu fiquei sentada no sofá, me permitindo a solidão e o silencio, enquanto ágil, ela revirava minhas coisas e separava nervosa, sapatos de salto e vestidos.
(Para uma verdadeira mulherzinha, as calças jeans devem ser ignoradas e mofar nos cabides).
Toda pintada ela se sentia com direito a tudo:
- Agora estou pronta, vamos viver!
- Não sei o que fazer com os meus pés, droga de inquietação!
A inquietação se enroscava nas pernas de Juliana, pedindo carinho, enquanto ela:
Nem queria saber.
- Deixe comigo, Juliana – Eu disse. E peguei a inquietação e a coloquei em meu colo.
- Shh, shh – Eu disse, e a acalmei, até que ela parou de ser ela mesma.
E tudo ficou em silencio, na mais perfeita harmonia.
E Finalmente tivemos paz.
Um tempo depois, Juliana me olhou chocada em desacostumo:
-E agora? O que faremos?

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Ela não gostou nada, nem um pouco. Se tivesse gostado, a fadinha não estaria presa dentro de um copo virado de cabeça para baixo em cima da mesa.
Ela olhou pra mim com um olhar que dizia “estranho”. Uma menina imaginária olhava pra mim, não acreditando, e isso não poderia ser bom. Não demorou muito para eu perceber que o que a deixava de tal maneira não era o absurdo, e sim a decepção.
Eu balancei a cabeça. Não tinha nada que eu pudesse dizer. Eu não sei dirigir a minha imaginação. Não tenho controle.
Resmungando, Juliana soltou a fada que eu tinha imaginado e deixou que ela voasse para bem longe:
-Ela não é nem do meu tamanho!

- Precisamos de outras crianças.
Juliana falou, com uma intuição metódica, sem reflexão alguma e cheia de reclamações implícitas.
- Para quê? Eu perguntei.
- Pois eu preciso brincar! Ela disse.
E com um olhar acusatório ela aponta em minha direção o dedinho que escreve no ar: “De-que-me-adianta-uma-louca-improdutiva?!”
Obediente e meditativa, eu procuro lá no fundo o botão que me conecta com a minha imaginação. Mas logo me desconcentro com a voz alterada e exigente de uma Juliana em empolgação:
- Eu quero cinco ou seis... E meninas!

sábado, 11 de setembro de 2010

Juliana pegou uma palavra em suas mãos pequeninas e a jogou no lixo.
E pegou outra após outra, até ficar ela cansada, ou o lixo muito pequeno.
Em outros tempos, eu pensaria “Quanto desperdício!”
Hoje, olhando para ela, depois de muito tempo sem vê-la,
Eu tapo minha boca, ilumino meus olhos com o seu sorriso,
E risco um palito de fósforo.
O professor entra na sala e me censura pela minha infantilidade:
“Quem é que não sabe que não se brinca com fogo”?
Juliana intercede por mim aos sussurros:
-Nos perdoe... Somos apenas um erro de digitação!

domingo, 11 de abril de 2010

Juliana me contou como foi o que dia em que me conheceu. Ela tinha acordado cedo, tomado um Nescau e colocado o seu melhor vestido de passeio.

– Eu quero um emprego. – Disse ela, para a mocinha do setor de RH do mundo imaginário.
– É voluntário. E precisa pagar uma taxa de inscrição.
Juliana torceu o nariz.
– Pelo menos eu posso escolher quem eu quero?
A resposta da mocinha foi seca:
–Não.
Juliana torceu o lábio, fazendo uma careta:
-Tudo bem!
Quando Juliana terminou de preencher os papéis, a mocinha apontou com o dedo algo parecido com uma máquina de refrigerante.
– São duas moedas.
Juliana teve que pedir emprestado.
Ela foi até a máquina e colocou as moedinhas. Elas fizeram barulhinhos até cair.
Juliana apertou o botão e esperou.
Nada aconteceu. “Só o que faltava”.
Ela olhou ao redor pra ver se ninguém estava olhando, e começou a dar chutinhos na máquina com toda a sua força.
Até que finalmente dela saiu um papel.
Era o meu nome e o meu endereço.
Ela dava as costas para o seu mundo, quando a mocinha chamou sua atenção:
– Ei! Não esqueça o crachá!

E então ela partiu, trazendo uma mochila nas costas e nas mãos uma lancheira.
E muito orgulhosa de si, ela sorria ao olhar o bilhete escrito com giz de cera, que colado em seu peito com fita adesiva dizia:
“Juliana. A serviço”.

domingo, 28 de março de 2010

– Me dá! – Ela disse.
Acordei com uma frase na cabeça.
Mas Juliana a apanhou antes que eu pudesse ler.

Ela dobrou e guardou no bolsinho do casaco.
– Não vou te contar o que é! – Disse zombeteira.
E lá se foi algo que eu poderia escrever.

A mesma coisa na manhã seguinte. E na outra também.
Eu acordo durante a madrugada. E o bolso de Juliana transborda.
Tenho insônia durante a semana inteira. E Juliana compra uma caixa.

Escuto os passinhos dela cruzando o corredor no meio da noite.
“Tap, tap” no assoalho.
Tradução: ela vai aprontar.

Pulo da cama e vou atrás dela.
Ela está sentada na mesa da sala, usando óculos grandes demais para suas orelhas.
Só para fazer pose.

Espalhadas pela mesa, minhas frases são um quebra-cabeça que ela monta.
– Juliana, o que é isso? – Pergunto.
Ela não perde tempo olhando pra mim quando responde:

– É minha brincadeira favorita!

domingo, 21 de março de 2010

Eu apertava a cabeça com força contra o travesseiro, esperando ser capaz de atravessá-lo e voltar para o mundo dos sonhos.
Mas era tarde demais, Juliana já tinha acordado.
Ela estava de pé em frente a minha cama. Numa das mãos os dedos lutavam para segurar um punhado de canetinhas coloridas. Na outra ela tinha um bloco com folhas brancas.
– Faz um desenho pra mim.
Eu sentei na cama e comecei a rabiscar. Era uma casa no lago.
Amassei a folha de papel e atirei na cesta de lixo.
– Eu também não gostei desse – ela disse.
Ela estava parada atrás de mim, movendo a cabeça em sincronia com a minha mão.
O olhar de Juliana para meu desenho seguinte era de aprovação. Era uma jovem bonita de chapéu. Mas o rosto dela envelheceu em segundos, no exato momento em que eu decidi descartá-la.
Meu quarto se tornou um campo de bolas de papel, até que finalmente eu me senti inspirada e desenhava algo com satisfação. Juliana esperava ansiosa.
Eu terminei o desenho.
– Esse ficou bom! – ela disse.
Eu fiquei um bom tempo olhando pra ele. Então juntei as minhas mãos e o rasguei.
O previsível fez os olhos de Juliana darem voltinhas:
– Você não consegue evitar, né?

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

A angustia do puxa-puxa em sua boca me dava nos nervos.
A convivência com Juliana me habituara a personificar todas as coisas.
E não ajudava nada o fato de ela repetir o tempo todo: “Ele não é saboroso!?”
Ela abriu um ligeiro sorriso com a metade da boca desocupada, tentando segurar a saliva.
Tratei de afastar o pensamento compadecido. Há essa hora o doce já estaria em seus suspiros finais.
Ela lambeu as pontas dos dedinhos melados como uma selvagem. Eu estava horrorizada.
- Acabou a carnificina por hoje?
Ela ameaçava um “sim”, quando uma musiquinha macabra de tão feliz cruzava a esquina.
Com os olhos arregalados de excitação ela pulou do sofá.
- O Sorveteiro!