domingo, 28 de março de 2010

– Me dá! – Ela disse.
Acordei com uma frase na cabeça.
Mas Juliana a apanhou antes que eu pudesse ler.

Ela dobrou e guardou no bolsinho do casaco.
– Não vou te contar o que é! – Disse zombeteira.
E lá se foi algo que eu poderia escrever.

A mesma coisa na manhã seguinte. E na outra também.
Eu acordo durante a madrugada. E o bolso de Juliana transborda.
Tenho insônia durante a semana inteira. E Juliana compra uma caixa.

Escuto os passinhos dela cruzando o corredor no meio da noite.
“Tap, tap” no assoalho.
Tradução: ela vai aprontar.

Pulo da cama e vou atrás dela.
Ela está sentada na mesa da sala, usando óculos grandes demais para suas orelhas.
Só para fazer pose.

Espalhadas pela mesa, minhas frases são um quebra-cabeça que ela monta.
– Juliana, o que é isso? – Pergunto.
Ela não perde tempo olhando pra mim quando responde:

– É minha brincadeira favorita!

domingo, 21 de março de 2010

Eu apertava a cabeça com força contra o travesseiro, esperando ser capaz de atravessá-lo e voltar para o mundo dos sonhos.
Mas era tarde demais, Juliana já tinha acordado.
Ela estava de pé em frente a minha cama. Numa das mãos os dedos lutavam para segurar um punhado de canetinhas coloridas. Na outra ela tinha um bloco com folhas brancas.
– Faz um desenho pra mim.
Eu sentei na cama e comecei a rabiscar. Era uma casa no lago.
Amassei a folha de papel e atirei na cesta de lixo.
– Eu também não gostei desse – ela disse.
Ela estava parada atrás de mim, movendo a cabeça em sincronia com a minha mão.
O olhar de Juliana para meu desenho seguinte era de aprovação. Era uma jovem bonita de chapéu. Mas o rosto dela envelheceu em segundos, no exato momento em que eu decidi descartá-la.
Meu quarto se tornou um campo de bolas de papel, até que finalmente eu me senti inspirada e desenhava algo com satisfação. Juliana esperava ansiosa.
Eu terminei o desenho.
– Esse ficou bom! – ela disse.
Eu fiquei um bom tempo olhando pra ele. Então juntei as minhas mãos e o rasguei.
O previsível fez os olhos de Juliana darem voltinhas:
– Você não consegue evitar, né?