sábado, 25 de setembro de 2010

- Então você vai ficar em casa comigo hoje?
Juliana me encarava, não acostumada a ver meu rosto em sua cor natural. Pelo canto do olho ela observava o estojo de maquiagem intocado.
- Posso fazer de conta que hoje eu então sou a mulherzinha?
- Pode. – Eu disse.
Eu fiquei sentada no sofá, me permitindo a solidão e o silencio, enquanto ágil, ela revirava minhas coisas e separava nervosa, sapatos de salto e vestidos.
(Para uma verdadeira mulherzinha, as calças jeans devem ser ignoradas e mofar nos cabides).
Toda pintada ela se sentia com direito a tudo:
- Agora estou pronta, vamos viver!
- Não sei o que fazer com os meus pés, droga de inquietação!
A inquietação se enroscava nas pernas de Juliana, pedindo carinho, enquanto ela:
Nem queria saber.
- Deixe comigo, Juliana – Eu disse. E peguei a inquietação e a coloquei em meu colo.
- Shh, shh – Eu disse, e a acalmei, até que ela parou de ser ela mesma.
E tudo ficou em silencio, na mais perfeita harmonia.
E Finalmente tivemos paz.
Um tempo depois, Juliana me olhou chocada em desacostumo:
-E agora? O que faremos?

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Ela não gostou nada, nem um pouco. Se tivesse gostado, a fadinha não estaria presa dentro de um copo virado de cabeça para baixo em cima da mesa.
Ela olhou pra mim com um olhar que dizia “estranho”. Uma menina imaginária olhava pra mim, não acreditando, e isso não poderia ser bom. Não demorou muito para eu perceber que o que a deixava de tal maneira não era o absurdo, e sim a decepção.
Eu balancei a cabeça. Não tinha nada que eu pudesse dizer. Eu não sei dirigir a minha imaginação. Não tenho controle.
Resmungando, Juliana soltou a fada que eu tinha imaginado e deixou que ela voasse para bem longe:
-Ela não é nem do meu tamanho!

- Precisamos de outras crianças.
Juliana falou, com uma intuição metódica, sem reflexão alguma e cheia de reclamações implícitas.
- Para quê? Eu perguntei.
- Pois eu preciso brincar! Ela disse.
E com um olhar acusatório ela aponta em minha direção o dedinho que escreve no ar: “De-que-me-adianta-uma-louca-improdutiva?!”
Obediente e meditativa, eu procuro lá no fundo o botão que me conecta com a minha imaginação. Mas logo me desconcentro com a voz alterada e exigente de uma Juliana em empolgação:
- Eu quero cinco ou seis... E meninas!

sábado, 11 de setembro de 2010

Juliana pegou uma palavra em suas mãos pequeninas e a jogou no lixo.
E pegou outra após outra, até ficar ela cansada, ou o lixo muito pequeno.
Em outros tempos, eu pensaria “Quanto desperdício!”
Hoje, olhando para ela, depois de muito tempo sem vê-la,
Eu tapo minha boca, ilumino meus olhos com o seu sorriso,
E risco um palito de fósforo.
O professor entra na sala e me censura pela minha infantilidade:
“Quem é que não sabe que não se brinca com fogo”?
Juliana intercede por mim aos sussurros:
-Nos perdoe... Somos apenas um erro de digitação!