sexta-feira, 29 de abril de 2011

Juliana escovava meu cabelo, pois eu não tinha vontade.
Ela fazia e desfazia uma porção de penteados cheia de inspiração, e eu sem.
Eu sem qualquer coisa.
- Prefiro o seu cabelo assim - Ela dizia, cercando a minha cabeça com presilhas.
- Eu me sinto infantil - Eu disse, me olhando no espelho.
Era certo que Juliana passaria em meus lábios um batom vermelho-gritante.
(Mesmo que eu não quisesse).
Então fugi e deitei na cama em silêncio, fazendo de conta que dormia.
Fazendo de conta que se eu ficasse bastante tempo ali o lençol me engoliria.
E eu não precisaria brincar de mais nada.
Mas uma criança não se deixa enganar. Sentada a meus pés, ela lamentava:
- Você não quer mais. Você enjoou.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Juliana encostou a cabeça em meu ombro,
E por saber que é assim como eu, depositou ali todo o peso.
Enquanto eu colocava a cabeça para fora da vida e apreciava a paisagem,
Juliana contava nos dedos das mãos, esperando.
Contando os dias e esperando,
Pelo dia que seria igual a todos os outros.

sábado, 16 de abril de 2011

Eu queria terminar um trabalho para a aula, mas os diálogos imaginários em minha cabeça não calavam a boca.
Juliana estava sentada no sofá me observando.
-Fica na tua... – Eu disse (muito educadamente)
- Sem problema, não vou me meter. – Ela disse (muito compreensiva).
Eu fingia para mim mesma que estava lendo.
As contrações faciais indicavam uma concentração convincente.

Mas meu cérebro era como um salão lotado de pessoas tagarelando sobre uma novidade extraordinária (volta e meia mastigando a azeitona do copo de Martini) sem nunca chegar a um consenso.
De repente uma mulher em preto e branco vestindo roupas dos anos vinte se virou pra mim:
- E então, como vai ser?
Um homem, tirando o chapéu, foi se juntar a ela:
-Sim! Qual será o resultado?
Eu respirei fundo e fechei as portas. Lá dentro agora tocava uma música animada e mulheres dançavam e rodopiavam dando gritinhos.

De volta ao silêncio do mundo exterior, eu continuei a digitar pensando na data de entrega do trabalho, na aula de segunda-feira e no que a professora iria pensar e todas essas preocupações que me trazem paz simplesmente por não terem tanta importância.

É uma pena que nunca conseguimos nos controlar por tanto tempo. Eu olho para Juliana e ela olha para mim, iniciando novamente o velho debate.
- Mas, e se...

sábado, 9 de abril de 2011

Sofro periodicamente da síndrome de dedos inquietos (Eles querem digitar o tempo inteiro).
- Esqueçam, não temos nada para dizer. – Juliana estava de costas pra mim assistindo algum canal de desenho.
A expressão das minhas unhas era a de quem quer escrever uma carta para a pessoa amada. Me comoveu.
- Mas Juliana, olhe pra elas?
O esmalte vagabundo fazia caras e bocas.
Eu implorei. Juliana admitiu que parecia promissor. Da maneira como Eles se debatiam parecia que dali sairia um soneto ou talvez um forte romance.
Mas, aguardamos pacientemente e tudo o que ganhamos foi esse texto...
Juliana voltou a ligar a TV resmungando.
- Você ainda cai nessa?